Mentirinha boba

Mentirinha boba

Eu ia escrever uma crônica sobre educação, sobre a importância de se investir em todos os níveis do ensino, da diferença que faz uma boa escola, sobre o que podemos aprender com bons professores e bons exemplos, mas resolvi contar uma história. 

Quando eu tinha oito ou nove anos de idade, fazia tudo que uma criança gostava. Tudo que não podia eu adorava. Adorava subir nos pés de frutas que ficavam no quintal da vó e me pendurar de ponta cabeça. Também jogava bola descalço na rua até tarde, ou até minha mãe me gritar da janela de casa. Adorava jogar videogame escondido. A mãe mandava eu dormir e eu ia jogar videogame no quarto até ela descobrir e brigar. 

Adorava ir pra escola brincar de correr quando não podia, de conversar quando estava em aula, de colar nas provas de matemática, de imitar a professora quando ela estava escrevendo na lousa. Tudo que criança gostava eu adorava.

Mas teve um dia que extrapolei. Teve um dia que eu quis fugir da escola e consegui. Um plano bem simples que, para minha surpresa, deu certo. Com a ajuda do meu irmão e uns colegas de classe, casquei fora da escola com o Guim, um amigo que também queria viver essa aventura. 

Foi no meio da aula. Quando os colegas distraíram a professora, joguei as mochilas no pátio pela janela da sala. Enquanto meu irmão conversava com a tia, abrimos a porta e saímos. Não havia ninguém no pátio. Pegamos as mochilas e fomos devagar até a entrada do colégio. A escola era pequena, mas toda fechada. De dentro, não dava pra ver lá de fora, nem o contrário. Mas o portão, nós sabíamos que, vez ou outra, ficava destrancado. Passei a mão na maçaneta e, sim, era a vez dele estar destrancado. Saímos rápido, fechamos o portão e comemoramos. 

Decidimos andar rumo às nossas casas, mesmo sabendo que estávamos longe. Andamos por muito tempo, atravessamos grandes avenidas, sem medo de nada. Desfilamos pela cidade, nem um pouco discretos, de uniforme vermelho e mochila nas costas. Chegamos à avenida Brasil, a mais larga, e despreocupamos. Decidimos caminhar pelo canteiro central, bem à vista de todos. Andamos por muito tempo, esquecemos da história da fuga. E quando já estávamos cansados de tanto andar, um carro parou ao nosso lado. A diretora desceu pelo lado do passageiro, o diretor dirigia o veículo. Os dois nos olharam felizes, nos colocaram pra dentro do carro e voltamos à escola morrendo de medo.

O tom da conversa no carro era estranho. Contaram-nos que haviam chamado a polícia para nos procurar, mas estavam felizes e nos tratavam muito bem. Chegamos à escola e fomos direto para a sala dos diretores. Lembro-me que não teve briga, nenhum sermão ou castigo.

Nossos pais chegaram para nos buscar no horário de sempre. O assunto da fuga já havia morrido. Só me lembro que meus pais me pegaram como se nada tivesse acontecido. 

Só quando cresci me dei conta. A escola, ao invés de falar sobre a fuga com os pais e as crianças, alertar dos perigos que corremos, educar, escondeu o assunto. A notícia que dois alunos haviam fugido sem dificuldade seria ruim pro negócio. A escola ensinou a mentir. 

E a única coisa que eu e o Guim aprendemos é que lugar de criança fugida não é no canteiro central.