Ninguém precisa ser foda

Ninguém precisa ser foda

No fim do ano passado, fui ao sul, em uma sequência de eventos para lançar meu quarto livro, o Amores ao Sul. Fui a Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Todos, eventos muito emocionantes. Em Pelotas falei sobre escrita e poesia para centenas de crianças de uma escola do grupo Salesiano. Depois, autografei livros em Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. 

As livrarias não estavam lotadas, como têm se acostumado a estar quando convidam escritores que também publicam na internet. Mas nem todo escritor que usa a internet abarrota livrarias. Nem todos que estão na internet são escritores de multidões. Esses novos escritores, os jovens que arrastam milhares de outros jovens para seus perfis e eventos, falam de suas vidas, suas intimidades, e ensinam pessoas a viver melhor, mesmo com seus vinte anos de pouca vida. 

É nisso que o mercado editorial tem apostado nos últimos anos, como uma possível salvação de um naufrágio anunciado há tempos. A pouca leitura do brasileiro tem feito editoras e livrarias surtarem. Na tentativa de reinventarem o livro, transformaram-no em um produto de consumo rápido e superficial. Youtubers, blogueiros, digital influencers são os novos grandes vendedores de livros, com números que passam dos cem mil vendidos por capa. Um alívio momentâneo a um mercado que não sabe para onde andar. Um caminho, sem dúvida, pouco duradouro para a construção de novos leitores. Esses leitores de livros fáceis, escritos por personalidades e com textos duvidosos, não leem. Compram livros de seus ídolos para guardarem, como quem guarda uma toalha suada ou um cotonete usado do seu popstar favorito. 

O mercado aprendeu a vender livros para não-leitores e tem lucrado bastante com isso. Nessa minha viagem ao sul, ouvi de um livreiro uma dica importante para vender mais: “Você precisa de um título FODA.”. Sim, todo autor precisa, todo autor persegue e quer esse título FODA. Eu mesmo acho FODA todos os títulos que dei aos meus livros, porque me deram trabalho e é das tarefas que um autor mais gosta, escrever títulos. Mas não era isso que ele queria me dizer. É preciso usar a palavra FODA no título para vender mais: “Seja Foda!”, “A sutil arte de ligar o FODA-SE”, “F*DEU geral”. Sim, concordo: fudeu geral.

Não. Não concordo com a expressão que devemos ser foda. Ser foda é ruim. Ser foda é feio. Ser foda cansa. E ninguém que busca ser foda consegue ser foda de verdade. Os que acham que conseguem, gastam o resto da vida afirmando para os outros que são fodas, iludindo pessoas para, no fim, venderem seus livros com a palavra FODA na capa. Fudeu geral. 

Foda são os livros que não são fodas. Que não nos prometem nada além do prazer em lê-los. As editoras desistiram de vender as histórias, porque demoram a vender. As graças, os risos, os choros, as surpresas, os absurdos, isso tudo que é foda, que dá prazer e ensina mais sobre a vida do que os especialistas na arte de foder geral. 

Ninguém precisa ser foda. O que a gente precisa é aprender a ter prazer nas coisinhas gostosas que os livros nos entregam, nas ficções, nos amores, nas fantasias… 

Ninguém precisa ser foda. Desencane-se. Ou melhor, desenfoda-se.