O destino da minha vida não é um lugar

O destino da minha vida não é um lugar

Quanto mais acumulo anos na minha jornada, mais vejo beleza nas relações humanas que vivencio. 

Choro com cenas de afeto, carinho, gestos de amor, de respeito, de cuidado com o outro. Com os pedidos de desculpa, eu desabo. A fragilidade humana é tocante. E as pessoas que reconhecem suas fragilidades, acho tão bonitas. Talvez porque seja um ato escasso hoje em dia. Talvez porque é assim que provamos que somos humanos: quando erramos e nos desculpamos. 

Sempre que penso sobre isso, lembro-me do Caminho de Santiago. Já escrevi sobre minhas jornadas várias vezes, mas tem sempre algo para lembrar e me ajudar a refletir sobre a vida. 

Lembro-me de um dia muito singelo do Caminho, aconteceu em 2017. Faltavam dois dias para chegar a Santiago. Na primeira vez que tentei chegar, no ano anterior, não consegui por conta das dores que tive. Na segunda vez, eu sabia que ia conseguir, apesar do cansaço e da saudade. Eu já estava no meu vigésimo nono dia de peregrinação, exausto. 

A cidade se chamava Palas del Rei. Havia chegado à cidade ao lado de um amigo querido, o Sebas, um espanhol bem mais velho que eu. Tomamos um vinho, comemos um pulpo (polvo frito), e fomos ao albergue descansar. No fim do dia, fui sozinho a uma loja que ficava próxima do albergue para resolver um pequeno problema com meu celular. Caminhei devagar para preservar o corpo para os últimos dias. Pensei na aventura que estava vivendo, nas mudanças que estavam acontecendo comigo. Foi tão gostoso caminhar sozinho pela cidade. 

Quando voltei, ao lado da hospedagem, acontecia um festival de gaitas promovido pela igreja do vilarejo. Estava anoitecendo, uma cena cinematográfica, com famílias reunidas ouvindo e dançando com a música que os gaitistas tocavam. Esse clima familiar, essa mistura de idades, me deixou ainda mais saudoso. Parei por alguns minutos no meio do povo, fiquei observando o lugar, enquanto o pensamento ia longe 

Entre uma música e outra, peguei meu celular no bolso para fazer uma foto e vi que tinha mensagem. Era da minha mãe. Um áudio de quase três minutos. Afastei-me um pouco do local, entrei numa rua próxima e pus o celular no ouvido para ouvir o áudio. Uma voz muito doce me pôs logo sentado sobre a calçada, como um menino que se encolhe para ser feliz e chorar. O áudio era sobre o que eu estava vivendo. Dona Marta, com uma pequena retrospectiva, me fez recordar minha vida, minha caminhada até onde eu estava. E me lembrou que onde eu havia chegado já era muito bonito, que eu não precisava chegar a Santiago para ser feliz. Não consegui respondê-la. Só deu tempo de chorar e desligar. 

Lembro-me com carinho desse dia, da caminhada com Sebas, da prosa, do vinho, das famílias no festival da igreja, da saudade que eu sentia, do áudio da minha mãe. Recordo-me com amor dessa pausa que fiz antes de seguir a Santiago. 

Dois dias depois eu cheguei a Compostela, pela primeira vez a pé. E comecei a entender que a beleza da jornada não é chegar, mas viver toda a experiência humana que existe na caminhada. Beleza que existe até quando não estamos caminhando. 

Todo momento que vivemos faz parte da jornada que vai nos levar ao lugar que mais precisamos chegar: a nós mesmos.