O Estado é laico, graças a deus!

O Estado é laico, graças a deus!

O Estado deveria ser laico, mas não é, e por vários motivos. O principal é que o povo não sabe o significado da palavra “laico”. A verdade é que o povo mal sabe o significado da maioria das palavras, quiçá de uma palavra tão sofisticada. O povo não lê. 

Laico, pelo dicionário, é o “que não sofre influência ou controle por parte da igreja”. Ou seja, isento. O princípio da laicidade do Estado quer dizer que o Estado não deve influir sobre as questões religiosas nem ser influenciado por elas. Em resumo, estado e religião não se misturam. Isso não quer dizer que as religiões não devam ser respeitadas. Pelo contrário. É por isso que o Estado é laico, para que haja respeito por todas as crenças. 

Mas não é isso que acontece no Brasil. O erro começa na própria constituição, que garante o Estado laico, mas já no seu preâmbulo escolhe sua crença: “sobre a proteção de Deus”. Um erro grave de coerência. Um povo que mal sabe ler, vai saber escrever com coerência?

Ora, se o Estado é laico, se ele respeita todas as crenças e descrenças, impor deus na constituição não fere esse princípio? Sim. Muita gente acha que porque a maioria da população é cristã, e sendo o Estado uma democracia, a maioria deve ser respeitada. Isso não faz sentido algum, pois se o Estado é laico, a religião não deve fazer parte do debate político.

Estamos longe de viver esse laicidade. O slogan do governo atual é “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Ora, se Deus está acima de todos, está acima até de quem não acredita nele. E se isso não fere o princípio do Estado isento religiosamente, o que ferirá?

Estou escrevendo essa crônica porque, hoje cedo, ouvi um debate sobre laicidade em uma rádio local. Fiquei abismado com a noção que os porta-vozes da informação têm sobre o assunto. A maioria concordava que, mesmo o Estado sendo laico, isso não impediria que, todos os dias, antes de começar os trabalhos, seus servidores usassem os espaços públicos para orar. Outra pessoa foi além e disse que o princípio da laicidade não impede que nesses espaços tenham, por exemplo, um crucifixo. E um terceiro ainda acrescentou dizendo que orar todos os dias deveria ser uma obrigação para que todos começassem o dia melhor. E isso é o que acontece quando você não lê: emburrece.

É exatamente por isso que o Estado é laico, para evitar que pessoas que não compreendem nem o papel da sua própria religião, não interfiram nas crenças e descrenças alheias. É laico para que pessoas intolerantes não usem da máquina pública e de sua má fé para atacar, oprimir e desrespeitar os demais. 

Imagina se nesse Estado laico, defendido por esses cristãos, surgisse ao lado do crucifixo pendurado numa repartição pública uma imagem de um orixá. Imaginem a guerra… A intolerância religiosa que vivemos faz isso, diz que o estado é laico, desde que seja cristão.

Um Estado formado por pessoas que não sabem o significado das palavras, dificilmente vai conseguir manter um princípio tão sofisticado como o da laicidade. A palavra “laico” é sofisticada demais.

Acho que devemos começar por palavras mais simples. Talvez pela palavra “fome”. Não é possível que esse Estado não saiba o que significa fome. Não é possível, pelo amor de deus!