O que falta não é leitura. É curadoria

O que falta não é leitura. É curadoria

Nós aprendemos a usar algumas expressões e as repetimos sem nem pensar no que estamos dizendo. “Eu não gosto de ler” é uma das expressões mais mentirosas que escuto. Muita gente diz que não gosta de ler para justificar, por exemplo, porque não lê livros. Mas gasta uma infinidade de tempo lendo na internet. Uma leitura ruim, é verdade, mas lê. Lê a vida das pessoas nas redes sociais, lê sites de fofocas ou notícias em endereços não confiáveis, mas lê. E para piorar, ela gosta de ler. Uma leitura sem curadoria, mas ainda assim é leitura. 

Então nós lemos. Todos leem. As crianças leem quando os pais, com preguiça de dar atenção, entregam seus smartphones para distrai-las. E elas leem assim, jogando, vendo vídeos no youtube, curtindo os posts dos famosos nas redes. Leem sem curadoria, mas leem. Os adultos também leem. Leem as legendas do instagram, os textões que os amigos publicam no facebook, as matérias digitais que ensinam, com textos superficiais, como viver melhor. Todos leem. Leem sem curadoria, mas leem. 

Uma das sensações mais gostosas que tenho com a literatura acontece quando encontro com as crianças nas escolas ou feiras literárias. É quando ouço os pequenos rirem com poemas divertidos como os de Manoel de Barros ou Paulo Leminski. “As palmeiras estremecem. Palmas para elas que elas merecem”, “Ameixas. Ame-as ou deixe-as” ou “Formigas carregadeiras entram em casa de bunda”, é tudo poesia, versinhos simples, mas divertidos, que roubam o tempo da gente para nos dar, em troca, o riso. Fico mexido quando vejo que o hábito da leitura pode ser construído assim, com uma curadoria simples, que consiga abrir com delicadeza a porta da literatura para as pessoas. 

A substituição de uma leitura ruim por uma boa não deve ser brusca. Deve ser feita aos poucos, aos goles, com um versinho aqui, uma crônica engraçada do Luis Fernando Veríssimo ali… “As mentiras que os homens contam” foi o livro que me fez gostar de crônicas e contos, e me fez também me apaixonar por Luis Fernando Veríssimo. Foi a primeira vez que ri de gargalhar com a leitura. Eu não sabia que a gente podia rir assim, com um livro nas mãos. E a partir do Veríssimo, conheci outros cronistas. Li Rubem Alves, “O Amor Que Acende a Lua”, e ele me apresentou outros autores, como Manoel de Barros e Mario Quintana. 

Aliás, sobre o Mario Quintana, tenho quedas bruscas por ele. É dos autores que mais me divertem. Em um dos seus livros, o Caderno H, ele mistura poesia com aforismos, poemas, crônicas, tudo em um caderno muito leve de ler. Caderno H era o nome da coluna que o autor tinha em um jornal no Rio Grande do Sul, e nela escrevia de tudo: “O poema / essa estranha máscara / mais verdadeira do que a própria face…”, ou “O livro tem a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”. 

O que falta é curadoria. A variedade de livros, de gêneros e autores, disponíveis nas prateleiras é vasta suficiente para agradar todos os gostos. Até aos que amam uma fofoca, Romeu e Julieta, por exemplo, é um deleite. O vestido que Julieta usava quando Romeu a viu pela primeira vez deve ter custado uma fortuna…

O que falta não é leitura. É curadoria.