Óculos de grau

Óculos de grau

Um aprendizado que colhi fazendo o Caminho de Santiago foi que as pessoas são mais bonitas quando erram, sofrem ou sentem dor. Na dor do outro, enxergamos a pessoa como ela é. Na dor da gente, nos revelamos. É impossível sentir dor e disfarçar o que somos. Na dor, descobrimos como as pessoas são, o que elas sentem, se são rudes ou afetuosas. No sofrimento elas se revelam. E por pior que seja, uma pessoa revelada é bem melhor que uma que se esconde sob uma falsa perfeição. Quem não revela seus erros é uma farsa.

Na minha juventude, olhava para os meus pais e não via defeito. Apostava cegamente no caráter, moral e ética dos dois. É claro que era bem fácil acreditar na perfeição dos meus pais, pessoas acima da média em vários quesitos, amáveis, dedicados, responsáveis. Mas perfeitos, não. A fantasia de que meus pais não erravam, que tudo que faziam era a coisa mais correta que podia ser feita, era falsa. Isso não os desmerecem. Pelo contrário, só os deixam ainda mais bonitos e humanos.

Voltando ao Caminho, quanto mais uma pessoa estava com dor, mais ela se abria. Em trechos longos demais para não sentir dor, nos revelávamos. O motivo verdadeiro de eu estar ali, caminhando 830 quilômetros até Santiago, só contava depois de um manhã extensa de caminhada. E eu chorava em algumas dessas conversas, descansava a dor do corpo e do peito nas pessoas que estavam ao meu lado, sofrendo também. Da mesma forma, foi assim que soube das histórias dos amigos que estavam ao meu lado.

Depois que conhecemos as pessoas assim, como quem coloca os óculos de grau pra enxergar melhor, nos vinculamos a elas de um jeito mais forte. É como se, agora, fossemos cúmplices um do outro, testemunhas, guardiões de segredos valiosos. É uma relação, sem dúvida, mais humana. Requer de nós a empatia para aceitar o outro como ele é. Esse aceite é a chancela de um vínculo maior.

Voltando aos meus pais, então eu cresci e passei a enxergá-los assim, com mais clareza. Só que aí, de repente, acontece outra coisa. Quando a gente se distancia de quem a gente ama, dá muita saudade, sentimento exclusivo do amor —só sentimos saudade do que amamos: comida, viagem, pessoa… sem amor a saudade não existe — e quando a gente sente saudade, fantasia. A saudade é uma forma de reciclar as lembranças, polir as histórias e devolvê-las à vida só com as partes mais bonitas. E eu tenho um monte de saudade bonita, da época que eu era pequeno e fantasiava sobre meus pais.

Lembro-me deles assim, perfeitos. Lembro da minha mãe, como ela era uma jovem encantadora e inteligente, tinha um sorriso muito elogiado, que eu tive a sorte de herdar. Ela gostava de dançar e eu adorava acompanhá-la nas aulas de dança. Aprendi a dançar acompanhando essa moça bonita no salão. Lembro do meu pai contanto histórias, fazendo graça numa roda de amigos, lugar onde ele mais gostava de ficar, tomando cerveja, comendo churrasco e ouvindo música boa. Coisa que herdei do pai foi o bom gosto pra música e essa vontade de reunir os amigos e ouvir histórias.

Meu desejo hoje é que eu consiga, ao menos, repetir essa vida imperfeita dos meus pais. Uma vida que me dê saudades, e uma velhice que me deixe sentir cada uma delas.

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