Estreia

Teve um dia que a gente se amou e depois se declamou pela primeira vez. Nesse dia, estreamos nossa eternidade.

Eu te eternizo em mim

“Eu te eternizo em mim”
foi o que eu quis dizer
quando te disse
pela primeira vez
que te amo.
Eu não te eternizei
como quem faz de você
uma pedra,
mas como quem faz de você
uma pluma
e te deixa cair sobre o peito.
Você caiu sobre o meu peito
e eu fiquei como se fosse ave.
E nós dois voamos com o nosso amor.
Na segunda vez
que eu te disse que te amo
foi libertador.
Meu sussurro
bateu como uma rajada
de brisa em você.
E você, agora pluma,
voou tão leve
que ficou eternizada
no amor do mundo.

Poliglota

“Eu te amo”
em qualquer língua
é eu te amo,
tanto faz.
No italiano
é só dizer “io ti amo”
que eu te amo.
Em português
é só dizer que “eu te amo”,
só que eu te amo
mais.

Não digo

O que eu queria dizer
num poema
não pode ser dito.
É tão improvável
quanto as lágrimas que escorrem
dos olhos dos anjos
quando a gente se beija.
Tem cheiro de água
que bate na pedra
enquanto ela escorrega
de um rio pro outro.
Faz barulho
e é como se a brisa
tivesse trombado
com um pé recheado
de folhas de ervas cidreiras.
O que eu queria dizer
num poema
não pode ser dito.
É como se um galo
tentasse cantar às manhãs
sem saber que sua voz
não alcança as lonjuras.
Uma declaração
que te deixaria
em estado de afeto
ou tremendo de luto.
Não sei.
Porque eu,
eu talvez morreria
ao dizer no poema
o que não pode ser dito.
Então eu me deito
sobre o nosso infinito
E prometo: eu não digo.
E repito mil vezes pra mim
que eu não digo
não digo
e não digo
que te amo.

 

 

Travessia

Hoje eu tentei atravessar o seu sorriso. Fui de leste a oeste, de uma ponta a outra, sem saber que me afogar seria o jeito mais gostoso de fazer a travessia.

Camarim

A gente finge
que sabe amar,
mas não sabe.
E ama como se encenasse
peças de teatro
e se declama
como se o “eu te amo”
fosse a única fala dessas peças.
Mas o amor não é isso.
O amor é o abraço
que a gente se dá no camarim
depois que a peça termina
e quase ninguém vê.