Garoa

É muito fácil falar do amor
que a gente não ama,
que a gente não tem.
De um amor distante,
como as nuvens,
como se a gente não soubesse
que dentro das nuvens
estão as chuvas que refrescam
e as tempestades que devastam.
É muito fácil falar do amor
que a gente não ama,
que a gente não tem.
Que a gente só quer chamar de amor,
mas pra chamar de dor
eu chamo quem?
Eu quero um amor
para, quando chover, me deitar na rua,
ser levado pela enxurrada,
escorrer por outras ruas,
provocar acidentes,
ser tragado pelo esgoto.
Eu também quero um amor
para, quando chover, eu cair tempestade
num campo sem flor
e ver florescer o amor em tudo.
É muito fácil falar do amor
que a gente não ama,
que a gente não tem.
Eu quero o amor
que chove num dia
e evapora no outro.
Eu quero viver mil amores
para, um dia, depois de quase morrer
nas tempestades
eu possa viver
de um amor chuvinha.

 

Errar é humano. Persistir no erro é poesia

Escrever é o hábito de guardar a vida em palavras. Coisa que alguns poetas exageram e guardam tanta vida, que às vezes é possível encontrar mais oxigênio num poema que no ar que respiramos.

Dos poetas mais vitais que conheci, Manoel de Barros é dos meus prediletos. A vida que Manoel guardou nas palavras, muitas vezes, nem vida antes tinha. A pedra no poema do Manoelzinho tinha até ouvidos: “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.”.

Para conversar assim, em poesia, é preciso desamadurecer-se, fazer um movimento contrário ao que a vida nos conduz, infantilizar o olhar, fingir desconhecimento sobre as coisas, para voltar a espantar-se com as coisas. É o olhar surpreso, ingênuo, sobre o que acontece ao redor que dá fôlego para o verso.

Matilde Campilho, poeta portuguesa contemporânea, disse uma vez que “um poema não salva uma vida, mas salva um minuto”. Às vezes, a poesia é tão fundamental, que o instante em que estamos, o instante em que lemos um poema, é capaz de se tornar maior que uma vida inteira. E o poema eterniza o minuta.

Javi Martí, escritor e poeta cubano, escreveu uma das coisas mais bonitas que já li sobre poesia: “Um grão de poesia basta para perfumar todo um século.”. Não há fórmula para se chegar a escritas tão simples e espantosas, de tão belas. A não ser que você seja uma criança sem nenhuma noção de mundo.

Casa das Estrelas (ed. Planeta) é um dos livros que mais me tocam. Javier Naranjo, professor e poeta colombiano, juntou durante quase 10 anos definições que seus pequenos alunos do primário davam a palavras, lugares, pessoas, objetos e sentimentos. E produziu o livro mais espantoso da poesia atual.

“Amor é o que cada coração reúne para dar a alguém”, escreveu Lina Maria, de 10 anos. Para Jonathan, de 11 anos, “Branco é uma cor que não pinta”. Para Duvan, de 8 anos, “Céu é de onde sai o dia”. E para Alejandro, que tem apenas 9 anos, “Criança é um humano em tamanho pequeno”.

Como escritor e poeta, sinto inveja tamanha, que até me constranjo em tentar escrever poesia e não conseguir alcançar esse universo das crianças. Ao mesmo tempo, quando leio nossos poetinhas, faço um movimento de reduzir-me ao máximo, até insignificar-me, tornar-me um completo irresponsável com as palavras para tentar escrever sem quase saber das coisas. É um exercício difícil, muitas vezes até vergonhoso de se ver (um homem do meu tamanho brincando de ser infantil), mas inevitável para a minha própria existência como escritor.

Poesia, por mais dura que às vezes soe, é divertimento. Sem a diversão (que começa no poeta, em divertir-se com as palavras), que nos faz rir tanto quanto nos faz chorar, não há razão para a poesia existir. É por isso que todo mundo, quando sonha, tem um pouco de poeta em si.

“Tem vezes que alguém não tem nada pra fazer e começa a escrever poesia”, foi o que a Blanca de 10 anos disse quando lhe pediram para definir poesia. E eu me sinto assim, terminando essa crônica, tentando falar de poesia, sem ter nada pra dizer. Ou tendo tudo.

“Quando penso que fiz poesia, um passarinho pousa na minha janela e pia.”. (Essa infantilidade é minha).