O primeiro amor do mundo

Não chamaram de amor o primeiro amor do mundo. Era um amor que deixava perfume na gente quando passava. E que, num toque, tudo ficava sedoso: a pele e o coração. Um amor que até hoje perdura e não perde a essência. E que no dia que foi inventado, tocou as pessoas do jeito mais profundo. Chamaram de mãe o primeiro amor do mundo.

​O dedinho mindinho do vilão no fim do filme

Eu já disse em outra crônica que sou feliz porque tenho idade para começar uma crônica com “sou do tempo que…”. É claro que isso entrega algumas coisas sobre quem escreve, mas acho charmoso começar uma crônica assim. É como se o texto ganhasse uma mecha branca no cabelo. Tenho respeito por pessoas que podem contar histórias que só aconteciam antigamente, e ainda contam com aquela saudade imensa.

Sou do tempo que celular só tinha uma função: fazer chamadas. Tenho uma saudade imensa desse tempo. Do tempo que se o celular estragasse, estragava porque não fazia a única coisa que lhe era designado: chamar. Esse era seu motivo de vida: fazer ligações. Nessa época, a gente usava o celular até acabar. Celular tinha começo, meio e fim. E quando o aparelho morria, morria de tudo, porque morria da única coisa que tinha. Morria de vez. Hoje, não. Celular, antes de morrer (bem jovem), pega um monte de doença, que a gente nem sabia que existia. Estraga a caixinha de som, o touch, o fone de ouvido, a câmera, o flash, o sensor de reconhecimento de íris… E basta que um desses órgãos, que não são vitais, falhe, para que o celular todo morra. Morre sem morrer. Fica como um zumbi, que continua a fazer chamadas, continua a perambular por aí, mas não dá mais prazer. Tá brocha.

A indústria mundial de coisas descobriu esse novo produto, que dá muito mais lucro e vida longa às suas marcas: o perecível. O produto perecível é aquele que custa a metade do preço para as marcas e o dobro do preço para o consumidor. É muito mais interessante porque mantém a indústria ligada o tempo todo, dá volume de vendas e, infelizmente, gasta muito mais combustíveis. Ou seja, em breve, a nossa vida aqui na terra também vai ficar perecível.

Os eletroeletrônicos são ótimos exemplos de produtos muito interessantes para a indústria de perecíveis. Televisores, caixinhas de som, cafeteiras, mixers, batedeiras, máquinas de lavar roupa, geladeiras… todos ganharam novas funções pirotécnicas, que estragam numa velocidade impressionante. São produtos de morte rápida. Mesmo que o cérebro e o coração continuem funcionando, sem as novas funções, se não tem espetáculo, já eram. As geladeiras ganharam botões touch na porta, que estragam com facilidade, fazendo toda a indústria de perecíveis funcionar. E até pode ser que, mesmo estragada, sua geladeira funcione. Mas o que adianta resfriar se não dá show?

O mais triste é que essa indústria já chegou aos cinemas. Os filmes não terminam mais como antigamente. Para assistir o final de um filme você precisa voltar, pelo menos, mais duas ou três vezes ao cinema. Ou seja, você entra sabendo que o filme que você vai assistir não tem fim. São trilogias de cinco, seis filmes, que se casam com outros filmes e dão crias infinitas. O cinema virou uma suruba.

Eu tenho saudade do tempo que os filmes tinham fim. Do tempo que a gente só sabia que o filme ia ter continuação se, no fim, o vilão, que já tinha morrido, na última cena, mexesse a pontinha do dedo mindinho.

À poesia

Deito cedo, durmo tarde. Poesia tarda, fere e arde. Poesia árdua. Como uma ferida aberta, posia dói e faz alarde. Poesia a ferro mata. Poesia é arte. Poesia, mate-me ou terei que amar-te.