Livro novo

Hoje é dia de compartilhar essa lindeza com vocês. Dois Avessos é nosso novo livro, que nasceu desse encontro inesperado da minha poesia com a do calígrafo, e meu grande amigo, Fabio Maca. Dois Avessos tem dois lados, duas capas, dois poemas do avesso por página, escrito por duas pessoas que amam as palavras… Muito obrigado por ser o meu avesso nesse projeto e por estar ao meu lado na vida, meu amigo Maca. Obrigado também à Luiza, minha sócia nesse e em muitos outros projetos que virão. E à Luciana da Bacanuda, que costurou esse livro tão lindamente. Dia 17 de abril é o lançamento para todo o Brasil. Aguardem! Beijos.

Quando uma brisa passa

Uma brisa que quase ninguém nota
refresca a tarde onde quase todos estão.
Desarruma os cabelos de uma mulher
que acaba de sair do salão,
chacoalha as folhas de uma árvore
como quem sopra a sujeira
de um móvel empoeirado
e ajuda um panfleto publicitário
a atravessar a avenida.
Daí a brisa passa
e quase ninguém nota
que ela é feita um pouco de vento
e outro pouco de poesia.

 

Poema barulhento

Este poema barulhento,
ele foi feito para ser ouvido.
Então escuta!
Ele não tem barulho de mar calmo,
nem de chuva que bate na folha da árvore
antes de tocar o chão
e nem de galo que canta às seis da manhã
em um sítio no interior do país.
Este poema barulhento,
ele foi feito para ser ouvido.
Então escuta!
Ele é um galo desesperado
cantando atrasado
às seis e trinta e sete da manhã
em um quintal de uma casa
no meio da cidade grande.
O poema tenta falar,
mas a buzina de um carro atravessa o poema,
atropela as palavras
e você não escuta.
Então escuta!
Começa a chover no poema
uma chuva bem alta.
Um mar revolto se forma
no meio do quintal de uma casa
e o galo grita desconsolado
enquanto é levado pela enxurrada.
Mas escuta!
Este poema
ele foi feito para ser ouvido
e você vai ouvir.
Então escuta!
É um poema barulhento,
que grita todos os dias que te ama,
só que você nunca escuta.
Então agora escuta!
O galo cantou, a chuva caiu,
o mar se acalmou
e eu te amo.

Foi como descobrir um continente

Foi como descobrir um continente.
Era tudo mar ao redor
quando avistei você no horizonte.
Todos os amores já haviam naufragado.
Nadei por dias, rumo às silhuetas
que o sol e a lua desenhavam
na esquina do mar com o céu.
Choveu muito no caminho.
Nadei como quem enfrentava
o mar mais arredio.
Uma baleia apareceu pra me dizer
que era impossível te alcançar.
Enquanto ela falava,
eu descansava sobre seus remos.
Demorei para chegar a você.
Quando te alcancei, estavam todos lá:
a baleia, o sol, a lua, o céu e o mar.
E os amores naufragados me abraçaram
quando sua terra me deu chão.
Foi como descobrir um continente
que já havia sido descoberto.
Mas não houve decepção.
Nesse dia, foi a primeira vez
que eu te descobri.

São as águas de março fechando o verão

A música está alta. Estamos na varanda da casa, entre irmãos, pai, madrasta, alguns amigos da família, cerveja, carne e conversas casuais. De repente, uma discussão começa, é sobre música (não há encontro nessa casa sem música). Não é sobre a música como arte, mas sobre a qualidade das músicas que tocam. Elas não têm agradado a maioria.

O dono da casa é quem escolhe a trilha sonora. Seu gosto é muito diverso, vai de Di Paullo e Paulino a Pavarotti. Alguns gostam, outros nem tanto e, em meio a gostos e desgostos, um amigo sugere uma solução: cada um tem direito a escolher uma sequência de duas músicas. Assim, quando a segunda música termina, outro escolhe uma nova sequência, até que todos tenham sido agradados pelos seus próprios gostos musicais.

A princípio, o método é bem democrático, até que uma música desagrada a maioria. Começa uma nova discussão, agora sobre gosto musical. Em meio a piadas e alfinetadas, o amigo volta a ter outra ideia para apaziguar os ânimos do local: cada um escolhe duas músicas, como antes, mas agora ninguém pode falar mal da sequência do outro. Caso a regra seja descumprida, o crítico perde a vez na rodada.

Assim, o ambiente volta a ficar tranquilo e a tarde flui com música, cerveja e conversas casuais. Não há chance de desligar o aparelho de som. Nesses encontros, a música é tão importante quanto as pessoas. É ela que garante a alegria desses momentos.

Certa hora, o pai apresenta seus filhos a um amigo: “Esse, o mais velho, trabalha no agronegócio. O gêmeo é professor, a mocinha entrou na faculdade agora e o da ponta — ele aponta para mim — é o vagabundo da família. É poeta”.

Por mais que o pai esteja brincando, que essa fala seja mais em tom de piada que de verdade, existe uma verdade nessa fala, perpetuada há anos. É muito difícil entender o trabalho do artista como sendo trabalho. Aos olhos de quem só a consome, arte não é trabalho, é talento.

Tenho a sorte de ter nascido nessa mesma família, que me fez ver a arte como uma forma poderosa de resistência. O mundo é muito duro para ser vivido sem arte. Sem ela, não existiriam o choro, o riso, o grito, a dança, o corpo… Atrofiariam os olhos, os ouvidos, a boca, os braços, as pernas. A arte é o intervalo entre uma dureza e outra.

É romântico dizer que o artista é um vagabundo. A imagem está pronta, construída por quem não consegue perceber o papel do artista no mundo. É vendável colocar o poeta como louco, alcoólatra, mulherengo (ou puta). O artista debruçado em livros, letras, textos, pesquisas, dedilhados e pincéis, isso não existe, por isso também não vende.

Ser artista é duro, dá trabalho. E apesar de dar dinheiro para um monte de gente que não é artista, para si sobra muito pouco. O suficiente para comer, beber e dar mais caldo à história de que o artista é vagabundo.

Em meio a brincadeiras, outra música começa a tocar: “É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um pouco sozinho…”. Antes que a música termine, levanto-me devagar e saio. Triste por ser um vagabundo, mas feliz por fazer parte do universo da arte, que embala uma tarde tão gostosa de música e bebida na casa do pai.