A verdade é que a arte é uma mentira

Não existe arte sem surpresa. A arte só existe quando surpreende. Arte e surpresa, na verdade, são quase sinônimos. Um artista, quando pinta uma tela, ou quando faz uma performance, canta, escreve, atua, ou até quando dribla um jogador e faz um golaço, de alguma forma, está tentando surpreender. E a arte só será arte se provocar essa surpresa. Sem o espanto, o incômodo, o exagero, ela nada mais é do que uma imitação sem graça da vida. E quando a arte só imita a vida ela se torna inútil (aliás, não é verdade que viver só é uma arte se a vida for uma surpresa constante?).

No dicionário, a palavra “surpresa” quer dizer “Espanto (causado por algo inesperado), sobressalto, perturbação, pasmo, prazer que acontece ou surge de repente…”. Uma definição que serve tanto para a palavra surpresa, quanto para a arte.

A expressão “futebol arte”, por exemplo, refere-se a um tipo especial de futebol. O do drible genial, das jogadas surpreendentes, do talento excepcional de um jogador, de um elemento surpresa do time. Futebol arte é o futebol que a gente não sabe o que vai acontecer no próximo lance, mas espera, a qualquer momento, vibrar com uma caneta, um chapéu ou um golaço de bicicleta que acontece de repente. Futebol arte é quando a torcida mais grita. Os estádios só enchem porque nunca se sabe o que vai acontecer no jogo em que o craque está. Essa é a graça do futebol, a surpresa. E depois, o jogo acaba, os amigos se abraçam, voltam pra casa mais felizes com a arte que acabaram de apreciar. O futebol tem essa despretensão artística.

A arte é uma mentira. Jamais acredite nela. Ou melhor, nunca duvide do poder que ela tem de contar uma grande inverdade. O cinema, por exemplo, é uma enorme falácia projetada em tela gigante. E o adoramos por isso, por nos fazer rir, chorar, gritar, mesmo sabendo que é tudo mentira, que o homem não voa e que os aliens nunca invadiram o planeta. A mentira não tira a beleza do filme. Pelo contrário. Quanto mais o espectador se entrega às ficções do cinema, mais ele cumpre o seu papel fundamental de satisfazer despretensiosamente quem o assiste.

Não é raro o leitor ou a leitora se apaixonar pelo poeta que fala de amor. Como se o artista fosse todo o amor que escreve. Mas é tudo mentira. “O poeta é um fingidor”, que brinca com as palavras para surpreender, não para causar o amor. E faz isso muito mais para satisfazer a si mesmo do que seus leitores. Isso não quer dizer que o poeta não ama. Mas quando fala de amor, gosta mais da palavra do que do amor. É por isso que o poeta é um mentiroso, que se contradiz o tempo todo. Tudo pela palavra. Sua verdadeira paixão.

Não há mal em ser enganado pela arte. Aliás, esse é um dos seus papeis fundamentais, contar umas potocas para que a vida não seja só uma costura chata de realidades. É preciso emendar umas mentirinhas nesse tecido para dar graça à vida. A arte fantasia, inventa palavras, inverte histórias e nos dá prazeres que a vida não consegue dar. A vida é responsável pela verdade. A arte não. Ela precisa ser mentirosa para viver.

“Fui misturar o amor que tenho por você com o meu maior prazer, a arte, e deu que vou morrer de amar-te.”