Paixão argentina

Paixão argentina

Tenho preferência por pessoas apaixonadas. Apesar do risco que elas correm, tenho mais gosto por quem se joga à vida do que por quem se limita escondendo seus desejos e prazeres. Por isso, acho que gostei do povo argentino, mesmo sendo argentinos.

Minhas últimas férias passei em Buenos Aires com minha namorada e foram dias de muito prazer e calor. Andei como um peregrino, mais de dez quilômetros por dia conhecendo os cantinhos da cidade. Fomos dos mais populares, como o Teatro Colón e o Obelisco, aos mais locais, como uma loja de discos que escondia um pub de jazz, onde assistimos a uma banda homenagear hollywood. Um achado. 

O que pude reparar de comum em quase todas as experiências que tive por lá foi a paixão. O argentino é um povo apaixonado. E não estou falando só da paixão entre as pessoas nem só das coisas boas da paixão. Refiro-me a todas as paixões possíveis, à comida, à música, ao futebol e também ao mal que a paixão pode provocar. 

Na noite de jazz, o pianista era o maestro da banda. Um grande contador de histórias, apaixonado pela música tanto quanto pela arte de fazer o povo rir. Não havia intervalo desperdiçado. O maestro gastava mais tempo contando histórias que tocando jazz. Um senhor de aproximadamente setenta anos, que ria de tudo que falava, e que em quase tudo que falava provocava risos. Ele também se divertia tocando e empolgava o público assim, escancarado sua paixão pelo que fazia. Foi uma noite riquíssima, como diriam por lá. Saí do pub pensando nisso, que não se faz um espetáculo tão bom sem paixão. 

Também não se faz empanadas gostosas sem estar apaixonado. Os argentinos são bons de empanadas, que são uma mistura do pastel com a empada. Massa bem fofa, recheada de ingredientes que você escolhe: de carne, presunto e queijo, só queijo, frango… Aprovadas. E eles também são bons com as carnes. As parrilladas são um clássico portenho. Fatias de carnes um pouco mais grossas das que costumamos comer, macias e mal passadas. Dava pra sentir a paixão até nas fibras bovinas. E eu, que não gosto tanto de carne, provei e aprovei. Além, eles também fazem massas saborosas, pães como os europeus e cafés muitos bons. 

Mas claro, tanta paixão uma hora dá errado. No futebol, os argentinos são conhecidos como catimbeiros. Ou seja, batem e enchem o saco jogando. Apurrinham mesmo a vida de quem joga ou torce contra. Catimba é o que eles mais sabem fazer (vez ou outra ainda fazem um maradona ou um messi, mas não se comparam ao Pelé). Por isso é difícil jogar contra times argentinos sem sair um pouco estropiado. 

Paixão tem disso, deixa a gente cansado e muitas vezes machucado. Mas também sem paixão, um show de jazz seria só mais um show, uma empanada não nos faria gemer, nem o futebol teria graça sem as raivas que nos dá. 

Por isso eu proponho que guardemos o orgulho e sigamos um pouco mais os argentinos. Que nos apaixonemos mais, que façamos mais coisas gostosas, inclusive amar. É a paixão que dá gemidos ao amor. 

Porém, uma dica: jamais concorde com um argentino. Principalmente quando ele disser que o Maradona foi melhor que o Pelé… Jamais!