Pessoas de bem

Pessoas de bem

Pessoas de bem normalmente não são pessoas de bem. Acho péssimo usar essa expressão para pessoas comuns, que cumprem seus papeis. Ser gentil, por exemplo, não faz uma pessoa ser do bem. Ser gentil faz uma pessoa ser gentil. Mas uma pessoa educada pode, por exemplo, baixar livros de graça na internet, método conhecido como pirataria. Ato criminoso que pode, inclusive, dar prisão a quem o comete.

Outro dia, uma turma de amigos “do bem” conversava sobre um novo aparelho para a TV, que se compra fácil em qualquer grande loja, como Americanas, Magazine Luiza ou Amazon. Ele possibilita assistir mais de mil canais pagos e não sei quantas centenas de milhares de filmes, sem pagar mensalidade. O que você precisa é comprar o aparelho, conectar a uma TV com internet e se deliciar. Na minha época isso se chamava “gato”, um sistema old school de pirataria, que rouba conteúdos fechados e pagos, fazendo da pessoa que utiliza desse sistema um criminoso igual aos corruptos que ela lamenta existir por aí. 

O mais difícil nessa era veloz, de tantas oportunidades e caminhos fáceis, é desacelerar, solidificar nossos pensamentos e refutar essas pequenas chances de nos darmos bem. Lembro-me sempre de um colega de trabalho que espumava pela boca quando falava dos políticos que roubavam o país. Lembro-me da sua indignação com essa “roubalheira toda”. Mas também me lembro claramente dele roubar o estacionamento do prédio que trabalhávamos, não pagando a mensalidade do serviço e criando um novo cartão com o nome da esposa, para entrar sem ser cobrado. Uma pessoa do bem. 

É fácil ser um moralista. As definições dos termos moral e ética estão por aí, de graça na internet, para quem quiser ler e reproduzi-las. O difícil é ser coerente. Se você esbraveja contra a corrupção, mas fica tranquilamente com o troco a mais que recebe na padaria, você não é uma pessoa de bem.

Eu sei que não é fácil manter-se coerente. Executar o que pregamos, a doutrina que acreditamos, a cultura que admiramos é uma tarefa que exige de nós uma atenção constante. E quando penso nesse tema, só me lembro de minha mãe, da sua insistência em temas pequenos, em descobrir quem pegou a moeda que estava sobre a mesa, quem saqueou o cofrinho, quem comeu o pedaço do bolo que era do outro. Todos eram motivos de muita briga, discussão, até aprendermos que esses pequenos delitos eram os mesmos que formavam as pessoas odiosas que comentem assaltos por aí. Ela não estava nos ensinando a ser pessoas de bem, mas a ser coerentes. 

Cumprir o nosso papel antes de cobrar o papel dos outros também não nos faz pessoas de bem. Faz-nos pessoas sensatas. Não há como cobrar honestidade do outro enquanto a gente não cumpre primeiro esse papel internamente. 

Então, o que eu sugiro a todos, inclusive a mim mesmo, é o seguinte: devagarinho, sem ninguém saber, rasgue a carteirinha falsa de estudante que você fez para pagar meia nos cinemas e shows, delete os filmes e os livros que baixou de graça na internet e desligue o seu “gato net”. Tenho certeza que a sua luta contra a corrupção vai ficar bem real. 

Ah! E claro: esqueça as pessoas de bem.