Ponte engarrafada

Ponte engarrafada

Algumas pessoas já estão chamando a internet de “lugar”. Isso é coisa de gente recente, que nunca pôs os pés na grama, não sujou a cama com os pés cheios de terra ou nunca pegou bicho de pé. Eu só chamo de lugar os lugares que meus pés podem tocar.

Acho engraçado quando participo de entrevistas e, em algum momento, o jornalista, normalmente jovem, me pergunta “como é ter nascido na internet?”. Que ilusão! Morro de rir com a ideia de ter nascido na internet. Está certo que não me lembro muito bem da cena, mas tenho certeza que nasci em um hospital, de parto normal e dando muito trabalho à minha mãe, que deu à luz gêmeos.

Essa coisa que a internet está fazendo com as pessoas tem me deixado aperreado (palavra que sumiu depois que a internet apareceu). Alguns termos têm aparecido e as pessoas têm gostado de usá-los, mesmo sem pensar sobre seus significados. Por exemplo: instapoetas. Eu odeio esse termo. O que ele é? Em resumo, refere-se a escritores que nasceram na era da internet e que usam a rede para divulgar seus trabalhos. No entanto, diz mais do que isso. É um termo pejorativo, que classifica como menor o trabalho de quem escreve e usa a internet para espalhar suas obras. Poetas de instantes. Ou poetas do instagram.

Apesar de eu saber que é possível que eles existam, os instapoetas, e até gostem de ser chamados assim, eu recuso a ideia dele ser bom. Ser escritor é coisa anterior à internet. Ninguém escreve (muito menos poesia) só para a internet. Quem escreve, escreve, antes de tudo, para si. Para onde o texto vai depois de ser escrito é outra história, outro caminho. O que quero dizer com isso é que instapoetas tem o mesmo significado que insta-advogados, instamédicos, instapsicólogos, instaprofessores… Eles não existem. Uma coisa é usar a internet como veículo para divulgar o trabalho, se comunicar, acelerar um processo. Outra coisa é usar a internet para morar. Isso não!

Outro termo que me incomoda bastante é o de “influenciador digital”. Primeiro que eu acho horroroso pensar que alguém possa se autointitular “influenciador”. Quem influencia não pensa que influencia, mas o faz porque tem conhecimento sobre um assunto e o que diz reverbera em muita gente que também busca esse conhecimento. Outro ponto importante: quem influencia faz isso na vida, não só na internet.

O problema é que o “Digital influencer” virou profissão. Sim, pessoas que usam as redes para “influenciar” seus seguidores com conteúdos que, normalmente, eles mal viveram, mal conhecem ou mal dominam. São jovens que, por questões naturais da idade, ainda não tiveram tempo de se conhecer e de resolver as suas próprias angústias, ajudando outras pessoas a se “orientarem”. Tem algo errado aí.

Eu amo a internet e as coisas que posso fazer com ela, como os estudos, as pesquisas, os relacionamentos, as trocas. Mas a internet não é um lugar bom para a gente morar, nem para dedicar todo o nosso trabalho, muito menos para resolver nossas angústias.

A internet, esse lugar sem grama, sem terra e sem bicho de pé, é uma ponte engarrafada, que mal consegue sustentar nossas vaidades, quiçá nossas vidas inteiras.