Quase tudo ficou igualzinho

Quase tudo ficou igualzinho

Estávamos brincando dentro de casa. Ou no quintal do prédio com os amigos. Ou assistindo televisão. Não lembro. Só me lembro de quando fomos chamados ao quarto dos meus pais. Os dois estavam lá, meio sentados, meio deitados sobre a cama. Tinha um vão entre os dois. Fazia tempo que tinha esse vão entre os dois.

Subimos na cama, eu e meus dois irmãos, com dificuldade. A cama era grande demais. Tínhamos entre seis e sete anos, a idade que tudo é maior do que é. Ficamos no vão. Não me lembro de que lado fiquei, se do pai ou da mãe. Acho que no meio. 

A conversa começou tranquila. A mãe que mais falava. Contou uma história sobre amor e família. Foi falando assim, devagarinho, como uma mãe vai ensinando coisinhas aos filhos. Era uma conversa diferente. Os dois estavam mais calados que o normal, falando baixo um com o outro. Não era o que a gente conhecia… As brigas, os gritos.

Quando falaram em separação, choramos. Criança chora demais. E a gente chorou um tempão. Eles nos abraçavam e choravam também. Acho que o pai chorava mais que a mãe. A mãe se controlava, era forte. O pai era mais emotivo. Chorava e tentava falar, mas não conseguia. 

Depois o pai se levantou, se despediu e começou a sair. A mãe ficou com a gente e o pai foi saindo assim, meio chorando, meio saindo sem querer sair. Quando ele fechou a porta do apartamento, a gente correu para as janelas. Eu subi no sofá, que ficava escorado na parede, pra ver o pai quando passasse. Fiquei de joelhos sobre o encosto, com o corpo pendurado nas grades que protegiam todas as aberturas da casa. Morávamos no térreo.

Logo o pai apareceu do lado de fora, subindo as escadas que davam para a rua. Nosso apartamento ficava numa baixada. Era um prédio pequeno, mas para alcançar a rua tinha que subir as escadas de fora. Chorávamos e gritávamos pra ele voltar. O pai mal olhava para trás. E a gente gritava, cada um de uma janela. E quanto mais a gente gritava, mais o pai chorava.

Antes de sumir lá do alto da rua, ele parou no topo da escada e nos olhou, como se quisesse voltar, como se quisesse recomeçar tudo. Mas parecia que não podia. Aquele já era o recomeço. 

Quando o pai foi embora, ficou essa coisa esquisita que doía na gente. A mãe tentava nos acalmar dizendo que tudo ia ficar igualzinho. O pai tinha falado isso na cama, que tudo ia ficar igualzinho. Que ele viria nos ver todos os dias. Mas a gente ainda não sabia como isso ia ser. A gente só sabia que ele tinha ido embora.

Foi um dia difícil. Para todos. Dormimos e, como sempre fazíamos, no outro dia fomos para a casa do vô. Estávamos brincando no quintal, ou fazendo nossa tarefa, ou chorando, não lembro. A campainha da casa do vô tocou. A vó nos chamou lá de fora. Era o pai. Tinha ido nos ver. Era o primeiro dia que ele ia nos ver, como ele disse. E a gente correu lá pra rua. O pai não queria entrar. Ficamos sentados na calçada com ele, conversando sobre o nosso amor. E sobre ele não conseguir viver sem a gente. Foi o que ele disse e que nos acalmou. Que não conseguiria viver sem a gente. 

E quase tudo ficou igualzinho, com o pai e a mãe nos amando. Cada um do seu canto. E a gente no meio, no vão que ficou entre os dois.