Receita de xuxu (serve dois)

Receita de xuxu (serve dois)

Eu não gosto de chuchu. Mas de xuxu, gosto demais. Gosto desses apelidos que os amores se dão, desse jeito meio brega, meio amoroso de amar. Acho isso de apelido um xuxuzinho. Algumas pessoas dizem que não gostam, mas quando começam a amar, sim, lá estão eles, todos os “xuxuzinhos” do mundo numa frase só. 

Bonitinho, xuxuzinho, trem bão… é gostoso misturar esses carinhos com o amor. Mas espera. Eu não acho que os casais precisam ter apelidos para serem felizes, eu só acho que é um caminho sem volta o uso dos vocativos amorosos. E eles surgem de repente, antes ou depois de um “bom dia” ou de um “bons sonhos, meu amor”. Acho brega, mas gosto também. 

Eu não gosto de alguns apelidos. Tenho aversão a casais que só conversam assim, usando os vocativos exageradamente, sem regras nem limites e fazendo voz de criança, ou de “cliança”. Eu terminaria um namoro se me chamassem de “pudim” ou de “bebezinho”, ou se falassem com voz fina comigo. Isso não é só brega, é infantil, falta de maturidade e só a psicologia pra ajudar uma pessoa que fala assim. Mas “xuxu” e “bunitinho” com “u”, eu gosto. 

Também não gosto de “docinho”, e talvez seja pelo motivo inverso que gosto de xuxu. Docinho é doce demais. Xuxu (chuchu) é amargo e equilibra melhor com o doce do amor. Eu também já como doce demais pra colocar mais açúcar no meu dia-a-dia. Isso de “docinho”, de algum jeito, poderia me matar.

Se os casais, por exemplo, usassem os apelidos nas brigas, com certeza brigariam muito menos. Dificilmente uma discussão se estenderia se em algum momento da briga alguém usasse o “xuxu”. Os apelidos carinhosos são armas certeiras contra a raiva e o mau humor. São uma espécie de abraço que a gente se dá com palavras. 

Eu também poderia chamar as pessoas que amo de “bolo de cenoura com cobertura de chocolate”, porque eu amo bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Mas seria um apelido longo demais e não caberia em momentos breves, rápidos. Então xuxu dá certo por isso. E tem outra coisa na palavra xuxu que eu gosto ainda mais, que é o bico que a pessoa precisa fazer para falar “xuxu”. Experimente. Tente falar “xuxu” sem fazer bico… coisa fofa você falando “xuxu”.

Gosto quando os apelidos, além de fofos, são elogios. Eu adoro quando me chamam de “bunitinho”. Além do carinho, além do amor, é um prêmio. É uma palavra que pode consertar uma autoestima e, às vezes, ainda pode te fazer ganhar um tempo, evitando que se olhe no espelho. Se a pessoa me chama de “bunitinho”, eu nem troco de roupa. Vou pro trabalho de pijama e que se dane o resto, por que eu tô “bunitinho”. 

Tem pessoas que não gostam de “xuxu”. Mas já digo que é perda de tempo brigar contra ele, o apelido. Para alguns, os apelidos são uma pedra no caminho. Mas tentar descobrir quem colocou essa pedra é como tentar entender quem veio primeiro: o chuchu ou o xuxu? 

Quem me dera viver um amor assim, sem vergonha dos vocativos amorosos. Fico pensando em nós dois bem velhinhos, dois xuxuzinhos se amando de um jeito bem brega. E o povo vai achar tão fofo, que vai nos perguntar qual é o segredo de um amor assim? Eu vou responder que não tem segredo: é só temperar o amor com xuxu e deixar marinando por muitos e muitos anos.