Saudade do amendoim

Saudade do amendoim

Faz tempo que vendo a história de que não tenho boa memória. Mas sempre que redijo crônicas, o que mais escrevo são lembranças que, quanto mais remexo, mais me emocionam e me fazem querer revivê-las no texto.

Outro dia, estava pensando na minha vida, tentando lembrar como virei escritor. Fui me teletransportando para o passado e, quando vi, estava num campo de futebol, escorado nas grades que separavam a torcida do gramado, comendo amendoim e esperando meu pai terminar seu trabalho.

Não, meu pai não era jogador. A altura, a mesma do Romário, era desproporcional à barriga gordurosa, alimentada rigorosamente com cerveja e amigos. Mas, ainda assim, ele era um astro em campo. Comentarista esportivo, que amava o que fazia. Ele tinha a voz boa pro rádio, comentários sagazes e engraçados sobre a partida. A diversão era a marca do pai. Ele gostava de fazer o ouvinte rir.

Quando eu morava em Anápolis, minha casa ficava bem perto do estádio. Sempre que tinha partida, meu pai trabalhava. E sempre que dava, eu corria pro estádio pra ficar com ele. Naquela época eu podia entrar em campo e comer amendoim sentado na mesma grama que os jogadores competiam. E o que eu mais gostava era do amendoim. Não entendia nada de futebol, mas adorava comer amendoim vendo meu pai trabalhar. Ia com ele para os vestiários para entrevistar os jogadores e o técnico, subia para as cabines de transmissão quando o pai comentava o jogo de lá, entrava na tribuna. Poucos podiam acessar esses lugares, e eu me achava importante por isso, por poder estar onde poucos estavam, ao lado do meu pai. Naquela época, os radialistas eram bem importantes. Meu pai não dava um passo dentro do estádio sem ser interrompido por um fã.

Fui várias vezes ao estádio e já passei alguns perrengues algumas vezes. Uma vez, cheguei atrasado e, antes de entrar, um menino da minha idade avançou na minha cabeça, roubou meu boné do Corinthians e saiu correndo, não sem antes me derrubar e me deixar com a sandália arrebentada. Cheguei à cabine de transmissão chorando. E eu só me acalmei quando vi que na bancada tinha amendoim.

Eu adorava aquele clima de transmissão de jogo: o narrador gritando a partida, o comentarista, meu pai, entrando vez ou outra com informações engraçadas sobre o jogo, as vinhetas que tocavam antes de entrar os merchans… Fazia muito barulho nesse lugar, isso eu me lembro bem, mas como eu amava esse clima.

Depois, meu pai deixou de comentar os jogos, foi trabalhar na direção de rádios no interior do estado, onde pude aprender um pouco mais dos bastidores do trabalho dele. Editei áudios, montei programações musicais, fiz de tudo nas rádios que meu pai trabalhou. E quando tive a oportunidade de escolher um curso, fiz comunicação. E quando tive a chance de estagiar pela primeira vez, fui trabalhar na assessoria de imprensa do Goiás Esporte, um dos maiores times do estado.

Hoje me lembro bem que o pontapé inicial da minha carreira quem deu foi o meu pai, com sua paixão pela comunicação. E eu sou muito grato por isso. A única tristeza que carrego dessa história é a saudade que eu tenho de comer amendoim ao lado dele.