Sou ateu, mas tenho dúvida

Sou ateu, mas tenho dúvida

Não é fácil admitir em público meu ateísmo. Ele ofende muita gente. Sempre, por mais respeitoso que eu fale sobre a minha opção, falo cheio de “dedos”. Não porque tenho dúvidas sobre a minha fé, mas porque sei que alguém vai se ofender com ela. Sim, minha fé na não existência de deus ofende muitos que acreditam nele. Para essas pessoas eu quero dizer que a sua fé não me ofende. O que me ofende é a sua falta de empatia com a minha. 

Não há uma vez que as pessoas não desconfiem do meu ateísmo dizendo: “Mas lá no fundo eu sei que você acredita em algo”, na esperança que eu creia em deus de alguma forma. Outros dizem coisas como: “Eu também não acredito em deus assim, mas creio numa energia maior que rege tudo isso”, querendo que eu diga que também acredito em algo assim, mas não, eu sou ateu dessa energia. Acredito na energia elétrica que carrega meu computador enquanto escrevo esse texto, mas nessa energia que vem de algo superior, não tenho nem tomadas pra usar. E não preciso acreditar nessa força para ficar bem. Aliás, eu estou bem. 

Essa crônica não é para defender o meu ateísmo, mas para falar de respeito e também da beleza que existe na fé do outro. Eu acho bonito a força que uma boa fé pode proporcionar a alguém. Há beleza nos deuses que as pessoas creem. E também vejo beleza em como se relacionam com esses deuses, como eles fazem a quem tem essa fé. Uma boa fé, para mim, é a que tem a capacidade de dar paz, serenidade e conforto para as pessoas seguirem firmes seus caminhos.

Não estou certo sobre a minha fé atéia, tanto quanto a ciência ainda não está certa sobre a nossa origem, nem o cristianismo ou o espiritismo ou o islamismo ou qualquer outra religião não estão certos sobre a totalidade da vida. E eu creio que é na dúvida que vivemos melhor. É por não termos certeza absoluta do que viemos fazer aqui que podemos nos apegar a algo e seguir. E até me arrisco a dizer que a vida não teria motivo de existir se soubéssemos de tudo. É por não saber que temos vontade de seguir. É pela curiosidade, por querer preencher nossos vazios, nossas incertezas, que vamos escolhendo caminhos e construindo uma história única. Isso é bonito, ter uma fé que nos conduza por um caminho confortável para nós. 

Não quero travar batalhas com quem tem a fé diferente da minha, a não ser que essa fé ofenda, machuque, puna, humilhe, distingue ou provoque qualquer mal a alguém, povo, cultura ou país. Toda fé que promove o bem, para mim, é bonita. Eu aceito, respeito, admiro e quero vivê-la de perto, descobrir sua história, ver como as pessoas convivem com ela… Dá para admirar uma fé que não é a nossa pelos mesmos motivos que dá pra admirar uma pessoa que tem a beleza diferente da nossa. A beleza da fé é não ter um padrão. 

O problema é que nem toda fé é divina. Algumas objetivam a riqueza através do empobrecimento humano. Isso não é fé, é esperteza ao contrário. 

Por fim, admiro a fé como admiro um poema: com calma, tentando enxergar as belezas dos versos e o amor do artista. Um poema sem essa beleza, sem palavras bonitas, é uma fé difícil de crer. 

Como nasce uma flor é como nasce o poema, o amor e deus.