Tem herança que vale a briga

Tem herança que vale a briga

Até os meus quinze anos de idade a morte não me afetava.

Morriam de monte ao meu redor. Morriam primos distantes,amigos de amigos, vizinhos, e eu sequer me emocionava. Encarava a morte comouma etapa inevitável da vida. Parte da rotina, como comprar pão, ir à escola,trabalhar, morrer… Então as pessoas morriam e eu queria saber que horas agente voltaria pra casa, ansioso pra jogar videogame.

Mas aí a morte chegou às pessoas mais próximas. Primeiro, aos meus avós paternos. E eu me lembro da casa do vô cheirando gente triste, dos tios em pranto, do pai cabisbaixo. Era uma família bem grande, com muitos tios, tios-avós, primos de primeiro, segundo e terceiro graus. A casa ficava cheia de tristeza.

Os tios que choravam nos enterros dos avós também começaram amorrer. Tinha uma tia que era dona de uma padaria, e eu ia com meu pai só praganhar um pedaço de bolo ou de sonho. Ela morreu e a vida ficou menos doce. Eratriste passar pelo comércio fechado, sem sonho. Foi uma perda que eu senti tambémno estômago.

Os outros tios, irmãos do meu pai, foram morrendo aos poucos.Um de câncer, outro de infarto, outro de idade acumulada. E a morte foichegando e incomodando, tirando vidas de mim, roubando pedaços de alegria.

Quando a morte pulou pro outro lado, pegou a família da mãe.Meu avô foi o primeiro, e quando a morte chegou, levou o velhinho sem demora.Eu estava no quarto do hospital antes dele morrer. Revezámos todos, os netos efilhos, para gastar nosso amor com ele. Fui o último a vê-lo vivo. Quando meuprimo entrou para ficar no meu lugar, eu tinha certeza que o vô já havia morrido.Fiquei muito triste dessa ter sido minha última cena com ele. Nós tínhamoscenas melhores.

Depois do meu avô, morrer ficou triste demais. Morriam osmesmos, os primos distantes, amigos de amigos, vizinhos, e eu me importava comtodos. Incomodava-me quando recebia a notícia da morte, queria saber como estavamos parentes. Aprendi a viver com mais empatia assim, morrendo um pedaço de mim emcada vida que ia embora.

Depois, aprendi a roubar dessas mortes o amor. Cada pessoa quemorre deixa um amor. E eu descobri que a gente pode ficar com esse amor, comose fosse uma herança. Uma forma de ser recompensado pela perda. Não são todosque pegam o amor pra si depois que uma pessoa morre. Muita gente pega raiva, desi ou de deus. Às vezes é difícil perceber o amor que fica. Noutras, facinhofacinho.

Até hoje, a morte mais dura foi a de meu pai. Foi num AVC,coisa repentina aos olhos dos outros. Mas aos nossos, dos filhos, mulher epessoas mais próximas, não. O pai foi se despedindo aos poucos. Foi se descuidandoe indo. Mas, sabido que só, foi deixando o amor ainda em vida. Deixou muitoamor aos amigos. Tem um, o Carlinhos, que pegou esse amor e guardou que nemouro. Não solta jamais. Nós, os filhos, até esquecemos que o velho morreu, detanto amor que ele nos deixou. É um amor muito vivo.

Com a morte do pai, morrer, que há um tempo era nada, depoisficou triste, agora ficou amoroso. A disputa pela herança do velho não acaba.Ficou tanto amor, que às vezes dá briga.

É isso. Com o pai, o cabra mais mole do mundo, a genteaprendeu a brigar… a brigar pelo amor.