Tristeza crônica

Tristeza crônica

É difícil falar de poesia, de coisas que me alegram, numa semana tão triste. 

Essa é uma semana triste. E por mais que a poesia também possa ser triste, jamais será tão infeliz quanto essa semana. A poesia não alcança esse nível de tristeza.

As crianças. Essas, que fazem mais poesia do que nós, poetas crescidos, crianças que se foram quinta-feira e continuam indo todos os dias por causa da burrice humana, elas são a minha semana triste. A tragédia na escola de Suzano me deixou jururu. 

Levem todas as nossas riquezas, roubem nosso dinheiro, invadam nossas casas, peguem nossos carros, furtam nossos celulares. Mas não nos roubem nossas joias, as crianças. Eu não sei ser adulto sem elas. 

Só crescemos, ficamos mais velhos, para poder dizer às crianças “não cresçam”. É para isso que ficamos adultos, para alertar os pequenos que a vida de adulto é sem graça. A vida que vale a pena é essa miúda, ingênua, infantil. O resto é vida que sobra, é resto, que a gente não sabe o que fazer e inventa coisas pra ocupar essa fase. E o adulto é ruim de inventar. Inventamos trabalho, dinheiro e produtos que não conseguem nos dar a felicidade que uma criança consegue pisando na rua descalça. A felicidade, pra ser duradoura, precisa ser uma coisa pequena. Do tamanho de uma criança. 

As crianças que mataram as outras crianças, poupem todas. Elas não são as culpadas dessa tragédia. Alguma coisa também está errada com esses meninos. A culpa é da ganância que gera a fome. Da concentração de riqueza que gera desigualdade e discriminação. Da corrupção que gera abandono. Da violência dos adultos, que respinga nas crianças. Da falta de pai e de mãe. Falta de casa. Falta de empatia. É tanta falta que as crianças sentem. É tanta falta que nós, adultos, fazemos elas sentirem. 

Quando me roubam as crianças, me roubam as palavras também. E eu fico tentando escrever o que sinto, engasgado com o texto, tropeçando em palavras, sem saber o que fazer nessa crônica. 

Tem um livro que gosto e uso sempre que quero falar de poesia. Casa das Estrelas, de Javier Naranjo, é uma coletânea de frases que o professor resgatou das atividades em classe com seus alunos. Crianças de três a doze anos, definindo as coisas da vida, como “Casa”, “Trabalho” ou até “Sexo”. O livro é espontâneo, engraçado e, às vezes, doloroso, porque revela muito do que elas estão vivendo. 

Em um dos capítulos, as crianças definem o que é Guerra. “Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz”, disse Juan Carlos, de 11 anos. “É ficar com a vida uma bagunça”, escreveu Sandra Eliana, de 8 anos. E o que mais me dói, relata o que vivemos agora “É um jogo que os meninos de hoje jogam”, da Paula, de 9 anos. 

Muita gente acha que esse jogo é o do videogame, mas não é. É o jogo que elas estão vivendo de verdade. Uma criança sem família, sem atenção é uma criança que só tem a guerra pra viver. O que vive uma criança abandonada, nós, adultos, não conseguimos compreender. Mas é possível enxergar que a confusão existe e que a culpa dela é nossa, que crescemos e esquecemos de dizer às nossas crianças que a fase que vale a pena é a fase miúda. 

Uma fase que toda criança deveria viver por direito, com amor e muita presença nossa.