Tropeçou, virou poesia

Tropeçou, virou poesia

A poesia é mais feita de tropeços que de acertos. São palavras que esbarram nas mãos dos poetas e caem vestidas de versos sobre um papel. Poesia é essa sutileza quase natural, que lembra as folhas caindo das árvores quando faz outono.

Para ser poeta é preciso esperar. Por isso, recomendo um pouco de meditação e terapia para todos que querem se aventurar a fazer poesia. É preciso ter paciência, aguardar que as palavras cheguem, comecem a andar ao redor da gente até que o tropeço aconteça. Tem dias que demora até anos pra esse tropeço acontecer, mas ele sempre acontece, por mais que a gente não perceba.

Às vezes as palavras vêm aos montes, como se fossem boiadas, atropelando tudo, atravessando rios… cena das mais bonitas. E o poeta observa as palavras, como um boiadeiro no meio do pasto à espera do tropeço, do vacilo. E as palavras, de repente, começam a cair e a encher o pasto de poesia.

A boiada de palavras segue. A poesia fica.

Mas têm vezes que as palavras não vêm. E o que resta ao poeta é esperar, pois sabe que não adianta procurar pelas palavras quando elas não querem vir. E o poeta espera, aproveita a sombra de uma árvore grande no meio do pasto seco, lê um livro, e espera tanto que até cochila. Tinha um tempo em que o poeta ficava ali por dias, via o sol e a lua cruzarem os céus mais de uma vez, até escutar a boiada chegando, ainda bem longe. A poesia vinha chegando assim, demorada, primeiro com algumas palavras, depois com uma boiada imensa.

A espera é bonita. O poeta que sabe esperar a travessia das palavras, pega os versos mais sublimes. Quantos bois tiveram que passar para que Adélia Prado escrevesse:

Uma ocasião, / meu pai pintou a casa toda / de alaranjado brilhante. / Por muito / tempo moramos numa casa, / como ele mesmo dizia, / constantemente amanhecendo.

A poesia tem isso, de ser desimportante. Ninguém aprende uma lição com esses versos de Adélia. A gente só lê e suspira e imagina uma casinha e imagina o amanhecer. São versos de pura contemplação. Quando dizem que a poesia é ingênua, como coisas que crianças fazem, querem dizer bem isso, que a poesia não precisa ser pertinente, mas insignificante a ponto de poder ser tudo. Ser um suspiro, um alívio, um instante salvo. Poesia não dá lição de moral. Na verdade, ela é imoral, de tão boba e bela que pode ser, como os versos de Roseana Murray:

“Entrelaçar água e fogo / num encontro impossível: / poesia.”

Os caminhos que a poesia pode seguir depois de um tropeço são imprevisíveis, e essa também é a graça do verso, a surpresa. É como diz o ditado: “Se um boi tropeça duas vezes no mesmo pasto, são dois poemas” (ou algo assim). Ou como diria Mario Quintana:

 A ruazinha lagarteando ao sol. / O coreto de música deserto / aumenta ainda mais o silêncio. / Nem um cachorro. / Este poeminho / é só o que acontece no mundo…

E que a poesia seja como ruazinha sem nada, essa pracinha onde nada e tudo acontecem. Esse tropeço, que quando acontece não esfola ninguém.

Eu tenho um sonho de reciclar o mundo com poesia.