Viver é acumular vivências

Viver é acumular vivências

Eu estava para fazer 18 anos, saindo do ensino médio, me preparando para o vestibular, quando um amigo muito rico de minha mãe me convidou a trabalhar com ele. Era um trabalho temporário, mas bastante rentável.

O ano estava começando, tinha tempo para trabalhar sem atrapalhar os estudos. Minha tarefa: cuidar do controle de perda de soja numa fazenda durante o período de colheita. Um trabalho que eu não tinha ideia do que fosse. Com o salário, realizaria meu sonho de ter uma guitarra. Eu adorava música, tocava alguns instrumentos e queria a guitarra. Topei.

Fui com o dono da fazenda para a minha estreia no campo. Era no interior do estado, um confinamento de dois meses sem ver cidade, família e amigos. Mas estava animado. Imaginava que o trabalho fosse no escritório, mexendo em planilhas, pois ele havia me perguntado em algum momento se eu sabia mexer em planilhas. Quando chegamos à fazenda o que eu ganhei foi uma moto, pronta para estradas de terra, e um macacão de mecânico. “É para não estragar suas roupas”, ele disse. Fiquei assustado, mas ainda esperançoso que fosse um privilégio cedido só a filhos de amigos.

Tive privilégios, verdade. O dono não ficava na fazenda. Passava uma ou duas vezes por mês, dava instruções para o gerente e viajava para outros trabalhos. Fiquei hospedado na sua casa, na sede da fazenda, toda bem montada, com sala confortável, quarto arrumado, banheiros bons e uma dispensa cheia de comida, tudo disponível para mim. Me senti privilegiado, até descobrir minha rotina. Aí, tive uma leve vontade de desistir.

Era uma rotina extensa. Basicamente, eu era o assistente do gerente, cargo de muito prestígio no nome, mas de poucos benefícios na prática. Acordava às cinco da manhã todos os dias e descia para a vila onde ficavam os outros trabalhadores. Era uma cidadezinha jeitosa dentro da fazenda, só de funcionários, rodeada por muitos hectares de soja. Nos encontrávamos no refeitório para o café e depois saíamos para o campo. Virei o motorista da camionete sem freio que levava os trabalhadores pro trabalho. Foi nessa função que aprendi o que era freio motor. Depois eu voltava para a vila, deixava a camionete e pegava a moto. Aí começava o trabalho de controle de perda de soja, que era eu de moto atrás das colheitadeiras, contando os grãos que sobravam depois que elas rasgavam a soja. Um trabalho manual que me custou alguns tombos da moto.

Aos poucos fui me acostumando ao trabalho, à rotina de labutar todos os dias até quase meia noite, de domingo a domingo. Ao fim, estava exausto, com saudade da família, dos amigos, das luzes da cidade… Mas aí eu já era outro. Não tinha mais medo de escuro, de ficar só, de cachorro, de insetos, fantasmas… Sabia pilotar camionete, com e sem freio. Fiz curso de tratorista, fiz amizades com gente muito simples. E o mais bacana de tudo: me descobri.

Depois recebi um convite para seguir a carreira de agrônomo bancada pelo dono da fazenda. Recusei. Eu ainda tinha o sonho de comprar a guitarra e seguir minha vida na cidade.

Não virei músico. Virei escritor. Mas foi assim que aprendi que viver é, redundantemente, acumular as vivências.