Você foi embora antes do fim da obra

Você foi embora antes do fim da obra

Senti saudade sua e vim aqui escrever obviedades.

Que eu te amo, mesmo a gente não podendo mais se amar, é uma delas. Fiquei sozinho nesse nosso amor, nessa casa que você construiu e deixou pra gente cuidar. Só que você foi embora antes do fim da obra. 

Você tinha uma coisa que o nosso avô Miguel fazia e a gente odiava. Ele ligava todo dia pra deixar bem combinado o almoço do fim de semana. E quando chegava o fim de semana, ele ligava toda hora, até a gente chegar. Você fazia isso e a gente odiava. Daí você foi embora e agora eu odeio que você não me liga mais. Quando o vô foi embora, a gente sentiu falta disso, de como ele fazia de tudo pra gente se ver. 

Sinto saudade de quando você me chamava de poeta vagabundo. Era assim que me apresentava aos amigos, “o poeta vagabundo”. Eu não gostava. Parecia que eu não fazia nada. Até te disse isso uma vez e você não se importou. Agora que você foi embora, sinto saudade disso também.

Era bom sentar contigo no quintal da sua casa pra comer e beber. Você tinha bom gosto com as palavras que usava pra contar suas histórias. Você contava boas histórias. E cantava também. Só que quando bebia, dava um trabalho danado. Parecia criança, brigava por tudo, até ficava de pé pra falar mais alto. E você era tão baixinho. 

Mas até nas suas birras, eu te amei demais. No fim, a gente sabia que era um jeito que você inventava pra nos chamar a atenção. Você tinha isso, de fazer as coisas erradas só pra gente aparecer e brigar com você. Ao menos, a gente aparecia. Acho que era assim que você pensava. E eu sinto saudade de aparecer e brigar com você. 

Sinto saudade sua, carinha. Era assim que você nos chamava, os filhos, de “carinha”. Você falava isso rindo e não tinha jeito de não rir também. Sabe quando as pessoas falam sorrindo? Era assim que você falava “carinha”. 

Carinha, o seu sorriso está aqui na minha frente agora. E eu estou tocando o seu sorriso com a minha saudade. Saudade é essa coisa que a gente sente quando ama muito alguém. Só que a saudade é a parte que dói. 

Sinto saudade sua, carinha. Comecei escrevendo sobre essa saudade e olha onde chegamos agora, a lugar algum. Chamo de lugar algum os lugares que eu vou e você não está. Vou pra lugar algum todos os dias, desde que você foi pra algum lugar, que ninguém sabe muito bem onde fica. 

Você disse que ia virar estrela, mas todos os dias quando escurece eu olho pro céu e nenhuma ainda tem o seu tamanho. 

Sinto saudade sua, carinha. Da sua cara quando fazia arte ou quando falava alguma coisa só pra nos deixar irritados. Você tinha isso, de nos deixar irritados. Você gostava e ria. A gente ficava nervoso de te ver viver a vida como você gostava. Foi difícil entender que, pra você, a vida só podia ser vivida assim. A gente queria mudar seu jeito pra ter você um pouco mais com a gente. É ruim não ter você um pouco mais com a gente. 

Então vou te contar as novidades. Todo mundo sente saudade sua. O Leitão, o Ceguinho, o Carroça… A Gabi e a Isa estão bem e sentem saudade sua. A Aline também. O Henrique, que morava perto de você, está com a saudade sua. O Digão só tem saudade sua. E eu, esse poeta vagabundo, sinto tanta saudade sua, carinha.  

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