Noite das baleias

Eu poderia passar uma vida falando das vezes que fiz o Caminho de Santiago. Não me faltariam histórias pra contar sobre essa jornada. Uma delas, inclusive, inspirou o meu novo livro, Amores ao Sol, Um Romance. Mas não é sobre o livro que quero falar. Quero falar de mudanças.

Desde que fui pela primeira vez, não consigo deixar de pensar sobre o que vivi e de querer uma vida diferente, mais leve. Esse é o aprendizado mais bonito do Caminho, lidar com o peso da vida. A mochila é a companheira inseparável do peregrino. E se ela estiver pesada, o excesso de bagagem pode botar fim à caminhada.

O Caminho é a metáfora da vida. Parece clichê, mas é verdade. Para se chegar bem a Santiago, você precisa aprender muita coisa. E não adianta tentar aprender só com dicas de sites e livros. Cada peregrino vive uma experiência diferente. É uma jornada que mexe com o corpo e a mente. Você descobre músculos que não sabia que existiam. E acessa emoções difíceis de experimentar em estado “normal” de vida.

Ouvir uma história de um peregrino pode provocar mudanças profundas em você. A empatia é um dos sentimentos mais praticados no Caminho. Muita dor que você acha que é grande, de repente, se torna pequena ao lado da dor do outro. A vida ganha uma proporção mais adequada, mais justa.

Gosto de falar do Caminho, principalmente, nessa data, no fim de ano. É quando mais pensamos no futuro, nas mudanças que queremos para as nossas vidas. A peregrinação também me ensinou algo significativo sobre mudanças, que elas não acontecem de um dia pro outro. Jamais. As mudanças mais bonitas são frutos de longas caminhadas, feitas com calma, passo a passo. No Caminho, a gente aprende que a mudança não está no fim da peregrinação. Está na jornada, e ela nunca termina.

No primeiro ano, em 2016, comecei minha caminhada pela cidade de Burgos. E por vários motivos, não consegui chegar a Santiago caminhando. Tive muitas dores e fiz os últimos quilômetros de ônibus. No segundo ano, voltei com uma mochila mais leve e menos ansioso. Eu só tinha um medo, o de atravessar os Pirineus, na França, uma cadeia montanhosa de mil e quatrocentos metros de altitude.

Na primeira noite, antes de começar a caminhada, sonhei que atravessava as montanhas carregando uma baleia nas costas. No sonho, eu subia os Pirineus com esse peso todo. E quando, finalmente, cheguei ao topo, deixei minha baleia por lá e desci aliviado até Roncesvales.

Acordei do sonho com o alarme tocando às cinco da manhã. E com medo. Arrumei minha mochila, tomei um café no albergue e saí cedo. Não tinha baleias nas costas. A mochila estava bem leve. E próximo das duas da tarde, eu chegava a Roncesvales com o sentimento de que, dessa vez, passo a passo, eu conseguiria chegar a Santiago.

Trinta e um dias depois da partida, cheguei a Santiago carregando quase nada nas costas, só as histórias que havia vivido. E nesses dois anos de Caminho, provei mais mudanças em mim do que nos 34 réveillons que já atravessei.

Todo dia é dia de começar uma nova caminhada, uma nova mudança, com calma, sem esperar que ela termine. A jornada da mudança é mais gostosa de desfrutar do que a própria mudança.

Buen camino!

Lóbulos

Sinto falta
dos nossos beijos
e também da sua boca.
Sinto falta dos abraços
e também dos braços,
do seu peito no meu peito,
minhas mãos nas suas costas,
suas mãos no meu pescoço.
Sinto falta do jeito
que o relógio demorava
quando a gente se encontrava.
Quem botou pilhas novas
no relógio de parede?
Ninguém mais beijou
o lóbulo da minha orelha
depois que você
beijou o lóbulo da minha orelha.
Sinto sua falta
como se sentisse saudade.
E se for mesmo saudade,
será que é… amor?
Se essa falta insistir
por muitos dias,
te escrevo outra carta
pra dizer que te amo.