Deus me livre!

​De acordo com o Google, o dicionário da minha geração, preconceito “é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, culturas, lugares ou tradições considerados diferentes ou “estranhos”. Ao ser usado no sentido pejorativo costuma ser simplista, grosseiro e maniqueísta.”. 
E eu, que não sou gay nem negro nem pobre nem mulher nem índio nem nordestino nem tão diferente, já sofri preconceitos.

Eu, que não sou gay, sempre achei os cabelos grandes da minha mãe bonitos. Finos e compridos, ora se ondulam como pétalas de flor, ora se alisavam como folhas de papel de seda. Como herdeiro dessa beleza, também quis tê-los. E tive, não tão bonitos, não tão poéticos, mas eram grandes como eu queria. E me lembro de ter suportado de tudo: piadas dos amigos e colegas da escola, desconfianças sobre a minha sexualidade e me lembro de ter ganhado apelidos, como “babalu”, “boiola” e “cabelo”. Eu, que tinha todos os membros do corpo, era conhecido pelos meus cabelos grandes, que aos olhos dos outros, deixava a minha aparência afeminada. Me lembro que, constantemente, me diziam que cabelo grande era coisa de menina, que eu devia cortá-los. Cortei.

Eu, que não sou mulher, mas uso brinco, quando adolescente fui assediado por um homem de moto, que me perseguiu por algumas quadras, até eu conseguir me esconder dentro de um supermercado. Ele andava devagar ao lado de mim numa moto, assobiava, me chamava pra perto dele, olhava pro lado com medo de ser flagrado por alguém e persistia com os assobios e palavras grotescas, me chamando para “passear” na sua garupa. No supermercado, pedi ajuda. Só fui embora quando vi que o homem, covarde, fugiu. Corri para casa com medo e com vontade de tirar o brinco. Não tirei. E ainda hoje escuto as pessoas dizerem que brinco é coisa de “bichinha”.

Eu, que não sou negro nem pobre nem índio, já sofri preconceitos por ter a pele diferente, tatuada. Na cabeça das pessoas, sou maconheiro, ou sujo, depressivo, sou até exibido e vaidoso… para as pessoas que não me conhecem, sou muitas coisas que ainda não fui, sou quem eu não conheço, o que nunca experimentei… Sou tudo, menos uma pessoa que gosta de arte, se expressa com arte e faz com o próprio corpo o que quer.

E eu, que sou poeta, já sofri preconceitos diversos por isso também. Que homem que escreve poesia é “bichinha”, fresquinho, quando não é vagabundo, preguiçoso, depressivo ou maluco tentando viver de poesia… Eu não tento viver de poesia. No trabalho já fui chamado de poeta porque não podiam me chamar de “viado”. E tive que provar que sou melhor do que pareço, que sei me vestir de acordo com a ocasião, que também uso camisa, calça e sapato, que passo desodorante e perfume.

E se eu, que não sou gay nem negro nem pobre nem mulher nem índio nem nordestino (mas poderia ser), sofro preconceitos quase todos os dias, imagina quem é. Deus me livre!

“A discriminação por cor é uma ótima forma de separar o branco e o preto de um idiota.”.