A saudade é o silêncio do amor

​A saudade é o silêncio profundo do amor. 

Quando estou em silêncio, quase sempre estou em alguma saudade. E não são poucas as vezes que me silencio… não são poucas as vezes que amo e que sinto saudade.

Das pessoas que perdi, a saudade mais forte e bonita é a que tenho do meu avô materno. Me lembro de quase tudo que vivi com ele… é como se o velho ainda estivesse entre a gente. Coisa que o vô mais sabia fazer, ficar entre a gente.

Era um vô muito presente, afetuoso com os netos, mimava e fazia de tudo pra ter os netinhos por perto. Coisa de vô. E eu me lembro de quase tudo, com muita saudade e um pouco de arrependimento de não ter aproveitado mais os momentos com ele… de não ter dado um pouco mais de atenção para os mimos do vô. Mas criança é assim, muito nova pra pensar em saudade.

Não são poucas as vezes que paro em silêncio e revivo saudades do vô.

Me lembro que sempre arrumava um motivo pra gente se ver. Era muito presente na família, um centralizador, organizava tudo, mas com o netos era mais afetuoso, mimava, fazia de tudo, amava demais… Era como se tentasse, de alguma forma, compensar certa ausência que teve com os filhos. Era um amor bem bonito, coisa de vô… dos bonzinhos.

O velho era quem juntava a família aos domingos. Os tios e a vó na cozinha, ao redor da mesa, e o vô lá na sala com os netos. Era onde ele mais gostava de ficar… com os netos.

Tinha dias, de domingo, que a família discutia, os irmãos se desentendiam e iam embora magoados uns com os outros. E lá ia o vô, durante toda a semana, de um em um, juntar a família e garantir que no próximo domingo os netos estivessem com ele de novo. Acho que era por isso que o vô gastava seu tempo com os tios, pra garantir que seus netos voltassem aos domingos.

Só os netos que escolhiam o cardápio do almoço, regra do vô. Podia ser o prato mais difícil, que o vô comprava os ingredientes e passava a tarefa pra vó. Mineira, dona Clariscinda do Amor Divino, minha vó, se virava e fazia a comida mais gostosa… comida divina a da vó.

Uma das coisas mais saudosas que fiz com meu vô foi um carrinho de rolimã. Numa tarde inteira que passamos juntos, fizemos um carrinho bem veloz, campeão lá do bairro. E o vô me ensinou cada detalhe para se fazer um carrinho bem rápido e firme…

Eu nunca me esqueço dessa tarde que passamos juntos, fazendo o carrinho. Uma tarde inteira… e eu não me lembro como se faz o carrinho. Mas se me perguntarem como se faz uma saudade bem grande, se faz com uma tarde e um avô.

“Sentir saudade é andar para trás sem retroceder. É um andar charmoso, que só quem ama sabe fazer.”

O amor faz barulho

​O amor faz barulho, mas não incomoda. É barulho de chuva bem fina, de brisa, de vento, de sol e de flor… O amor faz barulho, mas não incomoda, barulho que faz passarinho, barulho bem manso, de folha que outona, de ave que voa, de banda de soul… e se alma fizesse barulho, seria barulho de amor. Que amor faz barulho, mas não incomoda. Porém, não confunda se amor não fizer mais barulho, que amor sem barulho é saudade, o silêncio do amor.