Errar é humano. Persistir no erro é poesia

Errar é humano. E essa sentença fica ainda mais evidente quando as supermáquinas olímpicas erram. Porque até que tropecem e se esborrachem no chão, você nem se lembra que existe uma pessoa dentro daqueles corpos esculturais, desenhados especificamente para cada tipo de prova.

O maior evento esportivo do mundo é um desfile de perfeição, tanto de técnica, quanto de físico. Até os mais gordinhos são gordinhos perfeitos, ideiais para as modalidades que praticam. E quando esses seres perfeitos cometem algum erro, nós nos lembramos que eles também são humanos, e nos emocionamos por isso, temos compaixão, sofremos juntos e até torcemos por eles. 

Esse é o verdadeiro espírito olímpico, torcer pelos humanos, não pelas máquinas. Torcer pela simpatia, pelo carisma, pela história de vida sofrida, pelo mais fraco, o mais feio e torcer também pela guinada na sua carreira, pela superação, pelo grande prêmio que vai transformar a vida dessas pessoas. No final, o espírito olímpico é uma grande torcida pela humanidade.

Porque essa busca pela perfeição nos distancia de nós mesmos. Não nos reconhecemos em seres que não choram, não riem, não erram e por isso nem pedem desculpas. Errar é humano. E ser humano é bom, até mesmo na maior competição esportiva do mundo, a dos deuses perfeitos do olimpo.

Quando o maratonista brasileiro, Vandelei Cordeiro de Lima, corria pelo ouro nas olimpíadas de Atenas e foi atrapalhado pelo padre irlandês, nós nos emocionamos muito mais com a superação, naquela chegada de braços abertos, do que com a conquista do bronze. Foi o ouro. Aquele momento foi o humano correndo, o brasileiro emocionado de chegar em terceiro na maior competição do planeta, e não o esportista perfeito lutando pela primeira posição.  

E o que, afinal, os atletas olímpicos têm a ver com a poesia? É que a graça da poesia também está no erro, na surpresa, no deslize, no tropeço das palavras. Palavras perfeitas, em versos impecáveis não emocionam porque não se parecem com coisa feita por gente. 

Quando lemos poesias que não nos tiram o riso ou o choro, que não nos trazem a graça ou nos causam incomodo, não sentimos as nossas humanidades. Não conquistamos o ouro. E aí achamos que não gostamos de poesia, mas na verdade nós só não nos reconhecemos nos versos. Não percebemos o humano por trás das palavras, não enxergamos o poeta.

Um homem com uma dor

É muito mais elegante

Caminha assim de lado

Com se chegando atrasado

Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor

Como se portasse medalhas

Uma coroa, um milhão de dólares

Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos

Não me toquem nesse dor

Ela é tudo o que me sobra

Sofrer vai ser a minha última obra.

Paulo Leminski

No mundo que eu acredito (parece hipotético), errar é olimpicamente poético.