Melhores amigos

Eu já me mudei de mim mesmo algumas vezes.

Mas as maiores mudanças que fiz aconteceram no ano de dois mil e dezesseis e dezessete, quando fiz o Caminho de Santiago de Compostela.

E antes que o peso das minhas mudanças caiam em demasia sobre o Caminho, acredito que as duas transformações teriam acontecido no mesmo momento, mesmo que eu tivesse escolhido outros destinos.

Eu fui ao Caminho disposto a mudar, a me desafiar, a fazer coisas que normalmente não faria por aqui. Fui disposto a me entregar às histórias que iria viver, largar as rédeas de mim e deixar que o Caminho conduzisse um pouco a minha vida.

Lembro-me do primeiro dia, no primeiro ano, de como eu estava assustado e com medo. Sozinho na Espanha, a poucas horas de começar uma caminhada de centenas de quilômetros, quis desistir da jornada, sem saber que naquela hora, se eu desistisse, não estaria abandonando só o Caminho. Estaria desistindo de caminhar para dentro de mim.

Quando consegui controlar meu medo, dormi e acordei no outro dia ansioso para peregrinar. No quarto escuro do albergue, entre os primeiros barulhos de peregrinos acordando e arrumando as mochilas, organizei meus itens o mais rápido que pude e levei tudo para o piso de baixo do pequeno prédio. Assim que a mochila ficou pronta, joguei-a nas costas e saí pela porta, ainda sob as luzes artificias da cidade. Virei para a esquerda e comecei a caminhar muito seguro, até perceber que o caminho era para a outra direção. Ri sozinho e voltei junto com os peregrinos que também começavam cedo a jornada. Dei meus primeiros passos rumo a Santiago de Compostela às seis da manhã, sem saber o que ia viver.

E vivi muitas dores, angústias, saudades… revisitei sentimentos que não acessava há anos, inseguranças, mais medos e dores, muitas dores. As do corpo foram as menores. As dores do peito me derrubaram muitas vezes. E como eu curei essas dores? Do jeito mais bonito. Abraçando as pessoas que me ofereciam carinho, afeto e seus ouvidos… Também ouvi muitas histórias bonitas, de gente do mundo todo, distintas, mas que de algum jeito se parecem com a gente, com as nossas histórias. Ouvir, observar e aprender virou rotina e desejo enquanto caminhava. Fui “curado” por um heike, mesmo não acreditando em heikes. E aprendi a julgar menos o que eu não conhecia.

No segundo ano, após ter feito o primeiro ano caminhando ao lado de muitos amigos, fiz um caminho mais solo, de longas peregrinações sozinho. Acordava mais cedo e começava a caminhar no escuro para andar tranquilo, comigo mesmo. E tive mais medos. Alguns dias, entrei pela mata no meio dessa escuridão, sem ninguém atrás ou à frente, e tive medo até de morrer. E quando não morri, aprendi que a vida não é feita só de luz. Aprendi a ver beleza onde eu não conseguia enxergar um palmo adiante. O silêncio ficou mais bonito, o barulho do tênis riscando o chão de terra por quilômetros e quilômetros era a minha melhor playlist. A sequidão da natureza no verão espanhol era eu, em transformação, entrando no meu outono, pronto para deixar cair as minhas folhas mais velhas.

Quando fiz o caminho pela última vez, fiquei amigo da pessoa que hoje mais quero por perto: eu.