Quando eu morrer

Quando eu morrer, quero que as pessoas briguem pelo amor que vou deixar a elas. E que elas se beijem, se toquem, se abracem, tudo para ficar com o meu amor. Quando eu morrer, espero que as pessoas comecem uma grande guerra mundial, armadas de amor, sem escudos. Que as pessoas se matem de amores por outras pessoas, sem dó, nem piedade. Crianças, velhos, pretos e brancos morrendo de amor todos os dias. A cada minuto, mil mortes de amor, uma grande chacina. E aí, quando eu morrer, na verdade, vai ser o dia que eu mais vou viver aqui na terra.

Com a devida vênia, são tempos de discursos medíocres

​Como é bom ouvir pessoas que conseguem, com palavras, nos emocionar, fazer crer em algo maior do que estamos vivendo. Nos sentimos melhores quando ouvimos palavras que surpreendem, tocam e despertam a nossa esperança. 

Ao contrário, quando as palavras são ruins, deixamos de acreditar, não nos empolgamos e percebemos que vamos mal.

É possível medir a competência de um líder só ouvindo seu discurso. E isso tem colocado quase todos os políticos de hoje em um nível muito baixo de competência. Algo vai mal quando ouvimos seus discursos e não nos emocionamos. Hoje, fala-se muito, mas muito mal.

“Eu tenho um sonho” é o nome do histórico discurso feito em 1963, na Marcha de Washington, por Martin Luther King, um dos mais importantes líderes do movimento negro nos Estados Unidade e no mundo. Seu discurso era de amor e de não violência ao próximo, e o sonho que ele tinha era de ver o negro e o branco coexistindo em paz.

Em 11 de setembro de 1973, o então presidente chileno Salvador Allende, cercado por militares no Palacio de La Moneda, discursa na rádio suas últimas palavras antes de morrer e do Chile sofrer a mais sangrenta ditadura da América, a de Pinochet. O que emociona é o seu tom de voz calmo e sua esperança, em meio às bombas jogadas no Palacio: “…saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor…”

No dia 8 de novembro de 2008, após vencer as eleições contra John McCain, Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos disse: “E aqui estamos nós, frente a frente com o cinismo e as dúvidas daqueles que nos dizem que não somos capazes, e a quem respondemos com o credo intemporal que representa o espírito de um povo: sim, somos capazes.”

Hoje são raros os discursos que nos emocionam. Em 16 de junho, ao apresentar sua candidatura, Donald Trump disse que os mexicanos exportavam para os EUA somente os piores do país, drogados  e criminosos, e que por isso: “Construiria um enorme muro. E ninguém constrói muros melhor do que eu, acreditem… eu construiria um grande muro na fronteira e faria o México pagar por ele.”.  Quase no mesmo discurso, sua mulher, a Melania, foi acusada de plagiar o discurso da mulher de Obama, a Michelle.

Na inauguração da linha 4 do metrô, no Rio, Temer disse ao Pezão, Governador do Rio que saía de um tratamento contra o câncer: “…há coisas que parecem maléficas e que vêm para o bem. Porque vou até tomar liberdade de um comentário pessoal. Você está melhor do que antes, está mais bonito. Então eu acho que acabou sendo uma coisa útil para o Pezão”.

As palavras refletem o que somos. Discursos que inspiram não são construídos de repente, são frutos de um contexto, de uma consciência verdadeira e de gente que realmente se emociona e, consequentemente, nos emociona. São as grandes atitudes que inspiram os grandes discursos. É por isso que grandes discursos nos emocionam.

E, com a devida vênia, são tempos de discursos medíocres.