A jornada é mais bonita que a chegada

Hoje, sempre que me bate alguma dúvida, medo ou receio de encarar um novo caminho, me lembro da minha jornada no Caminho de Compostela, na Espanha.

 
Esta semana, em meio a pensamentos de insegurança e medo, resolvi reabrir meu diário de Compostela. Li as páginas do meu primeiro dia, que me caíram como uma luva:
 
“Dia 01, de Burgos a Hontanas:
 
No meu primeiro dia de caminhada, acordei com um ânimo que não esperava sentir. Às 5h, já estava de pé, com o barulho dos primeiros peregrinos organizando suas malas para partir. Fui ao banheiro, limpei o rosto, escovei os dentes e me senti feliz. Enfim, o Caminho estava começando.
 
Antes de sair, parei numa cafeteria silenciosa na porta do albergue. Comi roscas, tomei um café bem quente e saí rumo à Santiago. Da turma do albergue, parece que fui um dos primeiro a começar. Notei que algumas pessoas me seguiam, como um guia. Não imaginavam que era meu primeiro dia. Então, deixei que algumas delas me passassem e comecei a aprender a perceber os sinais da estrada.

As setas amarelas estão por todos os lugares. Mas é preciso que você queira vê-las. É um exercício de paciência, porque em alguns lugares as setas estão bem claras, mas em outros, você quase não as encontra. Na dúvida, é hora de parar e procurar pelas setas. A observação paciente foi meu primeiro aprendizado. Na dúvida, pare e observe. Somente quando a seta surgir, prossiga. No começo foi um pouco desesperador, mas quando compreendi que era preciso ter calma, o caminho ficou seguro. Não havia pressa naquele lugar.
 
A estrada saindo de burgos é linda. Muito verde, girassóis e frio. Saí ainda de noite, mas logo que o sol surgiu, o calor veio junto. Quando vi, já tinha andado 10k nesse clima. Ainda não sabia se faria 20 ou 30k… Quando cheguei a Hornillos del Caminho (20k), decidi caminhar por mais 10k até Hontanas. O carioca, que conheci no dia anterior, me recomendou chegar a Hontanas e procurar pelo albergue do argentino. Mas não me disse que seria tão duro.
 
Os bastões foram minhas novas pernas na reta final do dia. Entre subidas e descidas, avistei a cidade. Uma vila escondida entre morros. Linda, limpa e bem antiga. Fui logo procurando o albergue do argentino. Era o último antes de acabar a cidade. O próprio argentino me recebeu, muito simpático. E o lugar se mostrou mesmo maravilhoso. Como foi bom chegar.
 
Eram 13h30, tomei um banho e às 14h comi uma pasta preparada pelo próprio argentino. Depois, descansei até as 18h, quando me levantei para a ceia comunitária. Nela, todos se juntam e dividem um jantar. Conheci Mina, Joaquin e um casal de orientais. Conversamos bastante enquanto bebíamos vinho. O vinho era meu professor de línguas. Quanto mais bebia, mais poliglota ficava para falar com meus novos amigos.
 
Bebemos, comemos e agora estou deitado na cama escrevendo esse diário. São 22h, estou cansado mas a cabeça não desliga. Não quero dormir enquanto não me lembrar do que vivi até aqui.
 
A jornada começou e já não quero que termine.”