Meu caderno cor de rosa é trans

A cor do meu caderno é rosa. Um caderno em que escrevo sempre, que carrego comigo para todos os lados e que rabisco de tudo. Meu caderno cor de rosa é trans, porque transita pelos gêneros sem regra, sem imposição, sem definição de sexo. É o meu caderno trans, que não se identifica só com o gênero da poesia, e se mistura, cada palavra mais, com outros gêneros.

A cor do do meu caderno é rosa, da mesma cor das flores que os homens aprenderam a comprar para conquistar suas mulheres. Mas também é da mesma cor que esses homens não suportam usar, não aguentam vestir, ou não suportam contemplar em outros homens, quando eles se vestem de rosa. Ou quando eles escrevem num caderno cor de rosa trans.

Por isso, eu ofereço o meu caderno cor de rosa trans a todos que não suportam as flores, que resistem à beleza dos jardins, ao perfume doce da rosa, nem à maciez das pétalas do universo cor de rosa. Ofereço também a esses homens a cor da coragem da mulher feminista, mais bonita que a de um guerrilheiro alfa-beta machista. E junto com ela, ofereço a cor das dores dessas mulheres, das suas raivas, suas lutas, suas marcas, seus choros. Mas também ofereço a cor do saber, da gentileza, dos botões de rosas que essas mulheres continuam a nos oferecer, mesmo com tanto cinza em suas vidas.

Ofereço esse meu caderno cor de rosa trans na esperança que você suporte a sua existência, que você se assuma e enfrente todo o ódio que ainda resiste em viver dentro de si. E se você não vencer o ódio, então, eu te jogo essa cor na cara, essa cor que é a mais bonita, que jamais foi cor de pele, que jamais foi cor de gente, e que sempre foi a cor do amor.

Esperança é quando a gente espera por algo na companhia do amor, então eu espero que você suporte esse meu caderno cor de rosa trans por nele ter amor. Que você não me bata só porque eu te ofereço essa cor, e que a flor também não seja seu instrumento de tortura. Mas que essa cor, que é uma flor, seja usada por você para te perfumar e temperar sua existência.

A cor do meu pequeno caderno trans é rosa, a mesma cor da flor que nasce insistentemente na dureza do asfalto cinza. Essas palavras dessa minha crônica, que eu escrevi no meu caderno cor de rosa trans, nascem na dureza de um momento cinza asfáltico, mas mesmo assim ainda nascem e têm cor.

Uma rosa que nasce de cara feia ainda tem cor-de-rosa. Uma rosa desmantelada com a força de uma mão raivosa ainda é rosa-cor. E quando a rosa resiste, ela refloresta uma rua inteira, faz jardim onde a vida já foi tão dura quanto um asfalto cinza de uma rua sem-flor.

No meu caderno rosa trans, que muito homem ainda não tem coragem de sujar suas mãos, brotam armas feitas de palavras cores-de-rosa. As flores só machucam os olhos de quem não suporta o amor, de quem não suporta a cor dos gentis.

Muitas rosas foram mortas nessa rua, mas não sem antes darem começo a novas rosas, novas flores. Muitas palavras do meu caderno cor de rosa trans também morreram pra reflorear outras palavras, outras ruas cinzas sem flores…

Nesse meu caderno cor de rosa trans, nessa minha rua cheia de flores, o gênero que eu mais me identifico é o trans, de transformação.

Linguagem de poesia

Em linguagem de poesia, quando eu disse que caí de amor por você, eu quis dizer que estava correndo pelo meio da rua quando, de repente, eu tropecei numa brisa e me esborrachei no seu jardim.