Jabuticabeira

Estou para escrever
o meu maior poema de amor.
Se eu já te escrevi um poema de amor,
espera!
Eu vou falar de coisas
bem mais infinitas que o mar,
mais doces que um balde cheio
de jabuticabas doces
e mais vitais do que você pra mim.
Espera!
Nesse meu poema, nuvens, flores,
pássaros, mesas de café da manhã
vão desaparecer, de tão banais.
Quando eu falar do seu beijo
e limpar as salivas que vão escorrer
enquanto escrevo sobre as nossas bocas
que se comem,
as jabuticabas mais doces,
do pé de jabuticaba da melhor safra,
do maior produtor de jabuticabas
vão amargar.
Espera!
A sua voz no meu poema
vai atormentar o sistema
de previsões meteorológicas
e fazer chover sem parar.
Choveu por meses
depois que você ventou sua voz
ao falar sobre a doçura das jabuticabas.
Mas espera!
Gastarei tantas palavras pra falar de amor,
mas bastaria o seu nome,
o seu mais doce nome
para o poema de amor exagerar.
Poemas de amor sem o seu nome
são a maior mentira
que os poetas de amor
aprenderam a contar.

Crime perpétuo

Minha literatura está muito distante da realidade. Escrevo para ocupar com fantasias os intervalos da vida, não para descrevê-la. Escrevo para descansar o viver.

Na poesia, adoro as invenções, brincadeiras que nunca foram experimentadas com as palavras. Adoro o sobressalto que uma palavra improvável, num lugar inadequado, pode provocar. Escrevo para criar espantos em quem me lê. Milan Kundera, poeta checo, diz que escreve “pelo prazer de contradizer e pela felicidade estar só contra todos”.

Acredito que a literatura, tanto quanto toda a arte, só é arte quando nos rouba da realidade, nos arranca da mesmice da rotina e nos espanta. Arte precisa chocar, seja pra rir ou chorar.

Fantasiar a vida, dar outras cores, imagens, sons, sabores que não experimentamos ainda, esse é o papel de quem escreve, sobre a dor ou a alegria. A escrita só pode ser bela se for nova. O escritor é quem traz o frescor para a vida através das palavras.

Também acredito que o profissional da palavra precisa ser irresponsável. Não há meta a ser cumprida quando se escreve. Não há ou não pode ter desejo maior ao escritor do que a própria satisfação. O maior troféu de quem escreve é de encontrar, numa busca implacável, a palavra certa, ou a palavra mais “absurda de boa” para um verso final, para um desfecho de uma história ou para um título. Outros anseios, como agradar o leitor, vender livros ou ser reconhecido são inúteis ao trabalho do escritor. São armadilhas para quem deseja costurar as palavras com autenticidade.

Escrever é minha profissão, que exerço com divertimento. Nem sempre acerto, e isso me deixa ainda mais feliz. Escrever é um erro atrás do outro. Dito isso, para quem me lê, o que escrevo também é tão importante quanto o que deixo de escrever.

Às vezes sou cobrado por não ter escrito coisas que eu jamais escreveria. O que algumas pessoas esperam da minha escrita, normalmente, eu jamais colocaria no papel. Mas isso também faz parte da jornada do autor.

Meu primeiro romance literário, Amores ao Sol, tem um punhado de histórias que as pessoas dizem que deveriam estar no livro, mas que não estão. Eu não as escrevi. “Mais beijos, mais dramas, mais sensualidade, menos descrições, mais detalhes, mais personagens, mais sobre Luca, menos de Rodrigo, etc. etc. etc.”. Eu acho isso lindo, um livro onde as pessoas se envolvam tanto, que também queiram construir a história comigo. São operários da palavra, mestres da obra. Leitores que botam a mão na massa só trabalham em livros que, de alguma forma, lhes interessam.

Ser escritor é reconhecer que tudo que escrevo não basta. Meu leitor é mais escritor do que eu. Ele escreve e incrementa a história com a imaginação.

“Estou com raiva do Rodrigo” é uma das frases que mais ouço das pessoas que começam a ler o romance. Quase me derreto com ela. Essa pouca distinção do leitor enquanto lê, entre o que é ficção e realidade, é o ápice da escrita para o autor. Sinal que o leitor está envolvido e comprometido com a história. É um prêmio.

Não escrevo para acertar. Escrevo para cometer os erros absurdos que não posso cometer em vida. Escrever é um crime que vale a pena.

Lucão em São Paulo, neste sábado

Meus queridos, neste sábado, 15, às 16h, estarei na livraria Martins Fontes da av. Paulista, SP, para autografar meu novo livro, Amores ao Sol.

Será uma sessão de autógrafos, em um evento aberto e gratuito na livraria. O livro estará à venda no local, na livraria, mas vocês podem levar o de vocês, caso já tenham. Autografarei esse e os outros dois de poemas que já publiquei, é só levar ou comprar lá 🙂

Espero vocês!
Beijos e até lá!

Lucão